• Paulo Cardoso

A visão de um professor em quarentena

Trancados, os professores e os estudantes viram um novo método de ensino bater-lhes à porta. Neste tempo de combate, a Sapiens Digitalis quis conhecer a experiência de um professor que está a canalizar todas as suas forças nas novas tecnologias. Professor, desde 2008, na Escola Superior de Tecnologia de Saúde de Lisboa (ESTeSL), Vítor Manteigas, revela ser um adepto do sistema be-learning.


Vítor, apesar de não exercer uma das suas áreas de formação, Saúde Ambiental, desde 2008, pertence a um dos grupos profissionais que está a combater a Covid-19. No fim, deixa o alerta sobre a importância de as escolas estarem atentas aos alunos que não estão a acompanhar este método de ensino.

Como se tem adaptado a esta nova solução de ensino?


Estas metodologias, para mim, não são propriamente novas. Em contexto presencial já fazia muito uso de novas tecnologias. Até para efeitos de ensino, de forma a complementar o ensino presencial. Coisas simples como a utilização do WhatsApp e da Moodle, que utilizamos no Politécnico de Lisboa e na ESTeSL. Já utilizava estas ferramentas de forma recorrente. Naturalmente, criaram-se outras oportunidades e a obrigatoriedade, diria eu, de se utilizar outras ferramentas e outras plataformas. A plataforma Zoom, para todos os efeitos, a generalidade das instituições de ensino superior têm um protocolo estabelecido, possibilita a utilização deste tipo de plataforma noutro regime: não é limitado aquilo que é disponibilizado ao utilizador convencional. Já temos vindo a utilizá-la para reuniões de júris de concursos e outro tipo de situações que implique contactos à distância. Utilizando o sistema Colibri que é uma grande vantagem, na medida em que não há limitação do número de participantes. Outra vantagem é não haver limitação do tempo por sessão. Por exemplo, desde que começamos com este regime de aulas já tenho tido apresentações de estudantes, com cerca de 120 minutos. No meu caso particular, sou um adepto fervoroso das novas tecnologias. Foi simples e fácil, na minha perspetiva, fazer esta transposição do regime presencial para o regime be-learning.


É bastante importante identificar os estudantes que estão à margem do processo, porque muitos estudantes não têm os recursos que nós assumimos que têm.

A relação entre alunos, professores e outras entidades tem corrido como suposto?


Ainda antes de 16 de março em que, formalmente, as escolas deixaram de ter o regime presencial de aulas, já o IPL tinha perspetivado esta possibilidade. Assim, a ESTSL determinou logo no dia 12 de março, que no dia a seguir (13) já não haveria aulas presenciais. Antevendo que isto pudesse acontecer, eu próprio tomei a liberdade de em sala de aula fazer sessões teste com os alunos. Eles tal como os professores têm uma capacidade de resiliência brutal e rapidamente se adaptam a estas novas circunstâncias. Felizmente, tive aquelas sessões com eles e acabou por ser uma mais valia. As instituições de ensino tendo este protocolo com a Zoom Colibri, já a utilizavam para comunicar com muita frequência. Os canais digitais já eram muito utilizados de forma recorrente na comunicação entre escolas. O que também aconteceu foi teletrabalho para o pessoal não docente. Não estando a representar ninguém, aquilo que a nossa escola conseguiu assumir foi a possibilidade de o teletrabalho acontecer. Todo o pessoal não docente, sem ser quem tem de realizar a segurança e manutenção do edificado, acaba por estar em casa a trabalhar, por exemplo, os Serviços Académicos.


Sente que há vontade, por parte dos professores neste modelo alternativo de ensino? Foram apanhados de surpresa aqueles que não tinham aptidão para o fazer?


Vai depender do nível de ensino. Cá em casa somos dois professores de dois níveis completamente distintos. Se é verdade que, por exemplo, no ensino superior admito que seja mais fácil, até porque muitos professores já trabalhavam com estas metodologias, no ensino básico e secundário admito que seja, em algumas instituições em várias zonas geográficas do país, um bocadinho mais difícil. Até porque há uma coisa que não podemos esquecer: o potencial de estudantes poderem utilizar estas tecnologias. Nós assumimos, de forma errada, que a generalidade deles tem equipamento informático, acesso à internet e muita das vezes não se verifica. Ou então, limitam-se a ter o vulgar smartphone, que já é muito bom para alguns deles com acesso restrito à internet, que não lhes possibilita a assistir a aulas online ou a ter acesso a conteúdo muitos pesados que lhes são enviados.


Os estudantes tal como os professores têm uma capacidade de resiliência brutal e rapidamente se adaptam a estas novas circunstâncias.

Acha que os alunos estão empenhados nesta solução de ensino? Eles manifestam-se para ajudar os estudantes que não têm as ferramentas?


O processo tem sido gerido com alguma facilidade. A generalidade dos estudantes tem os recursos. Há uma situação particular de uma aluna internacional que chegou há pouco tempo a Portugal e que não tem alguns destes recursos, nomeadamente o computador. Não tem possibilidade de assistir às minhas aulas neste regime. Pessoalmente, tenho o cuidado de lhe fazer chegar, por email, toda a informação para que ela vá abrindo no seu smartphone. Estamos a tentar encontrar soluções alternativas. Curiosamente, esta situação em particular foi identificada quando começámos a perceber que esta estudante não aparecia de forma recorrente às aulas e depois isto foi discutido com colegas dela. Eles chamaram-me à atenção que ela estava a ter alguma dificuldade. Isto é, os próprios colegas têm alguma sensibilidade para identificar estas situações e fazerem o report.



Além dessa dificuldade de falta de acesso às tecnologias, quais são as outras dificuldades que assina-la?


Eu não encontro grandes dificuldades. Estou a assumir isto como um desafio. Acho que a generalidade dos estudantes também está a assumir um desafio. Além dos constrangimentos naturais de estar fechado em casa, acho que isto nos cria oportunidades novas. Saibamos nós aproveitá-las, porque isto poderá potenciar em muito até a produtividade. Criarmos condições para fazer coisas diferentes, não necessariamente melhores, mas claramente diferentes. Acho que é importante aproveitar estas oportunidades. Sinto os estudantes muito motivados para esta nova forma de abordar a educação. É imperioso que o professor tenha a capacidade de perceber que estamos num momento de exceção. Há coisas que eram pedidas em contexto de sala de aula que neste novo regime tem de haver alguma flexibilidade. Umas coisas vão ser mais facilitadas de se cumprir, mas outras mais difíceis de executar.



Quais são as suas prioridades e as maiores preocupações dos professores?


A minha prioridade é que esteja tudo ligado. Mantive as mesmas aulas, nos mesmo dias da semana com os estudantes. Eles sabem a que dias e horas devem estar. As salas virtuais são sempre as mesmas, repetem-se. Garantir que eles estão presentes é uma prioridade. Apesar de serem de presença obrigatória, eu tenho o cuidado de fazer o registo das presenças porque eles assinam a sua presença no bate-papo do Zoom. Nas unidades curriculares que dou fazem-se muitos trabalhos de grupo. Peço-lhes que desenvolvam os trabalhos que agora têm de obedecer a outras regras. Há aqui outras formas que nós temos para ultrapassar esta questão da distância. Eu dou-lhes tempo e espaço em contexto de sala de aula para realizarem o trabalho. O que é feito agora é a criação de salas paralelas no Zoom, em que cada grupo fica alocado num espaço e eu vou rodando em cada um dos grupos para ajudar nas dúvidas. E depois é importante que ninguém fique para trás. Mesmo que algum estudante não possa estar nas aulas virtuais, eu gravo todas as aulas e disponibilizo-as a esses estudantes.


Qual é a sua opinião sobre as vantagens e desvantagens desta solução?


Neste momento, tendo em conta as alternativas que existiam, desconheço quais é que seriam para além desta. Eu não vejo desvantagem nenhuma. Aliás a única que possa haver, que não pode ser ultrapassada, é a questão dos estágios e das aulas obrigatórias de prática e prática-laboratorial. Acho mesmo que a melhor solução agora é a de ensino à distância. É bastante importante identificar os estudantes que estão à margem do processo porque muitos estudantes não têm os recursos que nós assumimos que eles têm.


Mensagem Final


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