• Catarina Magalhães

Uma luta de todos

Numa altura em que os números de infetados continuam a aumentar, de forma alarmante, todos os dias, é imperativo que se perceba a urgência da prevenção. Em Portugal, ainda não está registada nenhuma morte. Contudo, esse cenário já esteve mais longe da nossa realidade. Susana Patrício é enfermeira há 13 anos e relata os desafios e os conselhos para este perigo de saúde pública. Julga que “deveria ser imposta a quarentena obrigatória”, o quanto antes, no período mínimo de um mês.


Consideras que as pessoas têm noção dos sintomas exatos do covid-19?


Julgo que, nesta fase, ainda não terem noção dos sintomas só traduz um grau de irresponsabilidade, enquanto cidadão. A partir do momento em que é declarado o estado de pandemia, todos temos o dever de estar minimamente informados acerca da situação e, com minimamente, refiro-me a sintomas e formas de transmissão. Só assim poderemos evitar sermos contagiados e contagiar outros.


Em que difere o vírus da covid-19, em relação a um vírus da gripe dita "normal"?


De facto os sintomas são muito semelhantes e, dependendo da resposta imunitária do organismo de cada pessoa, eles podem ser mais intensos ou passar mais despercebidos. Importa que, nesta fase, qualquer pessoa que apresente sintomas como tosse, febre, falta de ar, dores musculares, comece por se resguardar e evitar ao máximo o contacto com outras pessoas. Só é possível saber se se trata de uma gripe ou de uma infeção por coronavírus através de rastreio hospitalar, portanto, enquanto não houver confirmação, é imperativo tomar todas as medidas necessárias, para não ser um agente de transmissão.


O SNS está capacitado para receber um número tão elevado de casos, como, por exemplo, noutros países da Europa, como a Espanha ou a Itália?


Há muito tempo, ainda antes de toda esta situação referente ao coronavírus, que vários grupos de profissionais de saúde - nomeadamente os enfermeiros e médicos - alertaram para o facto do Serviço Nacional de Saúde se apresentar debilitado e sem recursos humanos suficientes, para dar respostas atempadas e com a qualidade desejada, diariamente. Isto dentro de uma época "normal". Portanto, se tivermos em conta profissionais de saúde a trabalhar já no limite e recursos materiais, a maior parte das vezes, deficitários, será preciso um esforço extra humano de todos os profissionais e instituições, para que tudo possa decorrer com o menor dano possível, para todos os que tiverem de recorrer ao SNS.


Por isso é que é tão importante que todos façam a sua parte, principalmente a população, cumprindo as medidas recomendadas. Se assim não for - e não é provocar alarmismo - mas torna-se difícil dar a resposta eficaz que se pretende. Tem de ser um esforço colectivo, para conter o vírus. Não basta os profissionais de saúde estarem na linha da frente desta batalha contra o vírus, se depois as pessoas desvalorizam pequenas acções que podem fazer a diferença, como a lavagem frequente e correta das mãos. A população não pode sacrificar os profissionais de saúde e fazer a sua vida normal como se nada fosse, sem quaisquer cuidados.

Fonte: Público - Rubio/Arquivo

Julgas que os meios de comunicação social estão a contribuir para resolver ou estão a criar atitudes alarmistas?


Alguns meios de comunicação estão a fazer o serviço público que lhes compete. Estes têm uma grande responsabilidade, porque são eles o principal veículo de transmissão das informações que as pessoas precisam de saber. Se muitas das vezes provocam alarmismo… sinceramente, não me parece, porque, se assim fosse, estariam a haver comportamentos a nível da sociedade bem mais conscientes. O medo nunca pode estar na base das nossas decisões, porque nos impede de pensar racionalmente, mas a leviandade também não, uma vez que não nos permite agir. Empurra-nos isso sim para uma passividade de que tudo está bem e isso também não é o desejável. Por isso, neste momento, julgo até que um pouco de alarmismo é bom, a fim de que a população perceba, de uma vez por todas, que esta pandemia pode trazer consequências muito sérias a nós e a quem nos rodeia, se não for contida o mais eficazmente possível.


Os portugueses conseguem perceber a necessidade das medidas de prevenção e quarentena ou há um baixo índice de informação sobre o que é correto fazer?


Os portugueses, na minha opinião, ainda não perceberam a real dimensão que esta situação pode ter. Informação não falta, falta consciência.


O que é que ainda falta fazer, em termos de sensibilização, por parte dos governantes?


Medidas de contenção em excesso que salvem vidas são melhores que medidas de contenção escassas que colocam vidas em risco. O fecho de escolas foi uma boa medida, mas considero que deveria ser mais do que isso. Neste momento, deveria ser imposta uma quarentena obrigatória, no mínimo de um mês. Só assim conseguimos impedir ao máximo a circulação de pessoas, para controlarmos a transmissão do vírus e evitarmos que os hospitais entrem em colapso, quando começarem a aumentar o número de casos.


Que conselhos darias?


Lavem muito bem as mãos e várias vezes ao dia. Fiquem em casa, tanto quanto possível. Mas, se andarem no exterior, façam-no em locais espaçosos. Evitem contato próximo com as pessoas, evitem multidões, mantenham a distância social em, pelo menos, 1 metro. Não façam visitas, frequentando a casa de outras pessoas. Evitem fazer compras em horários em que possam haver mais pessoas. Tenham por casa medicamentos para a febre e, se os sintomas forem ligeiros, permaneçam em casa em isolamento.


Se os sintomas incluírem tosse com expetoração ou falta de ar recorra aos serviços de saúde. Pessoas pertencentes a grupos de risco, como sendo pessoas com mais de 60 anos, pessoas com doença crónica, diabetes, patologia respiratória ou cardíaca estejam resguardados o máximo possível, vigiando a sua situação e, no caso de surgir qualquer sintoma grave, recorrer de imediato aos serviços de saúde para avaliação.

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