Teclas na alma e voz como salvação

Criança amante de sons, apaixona-se pelo ritmo da bateria. Incentivado a seguir piano inicia o seu percurso na música aos 6 anos de idade e 12 anos depois começa já a lecionar. Organizado na sua desorganização, transforma uma lesão numa carreira.


Com um sorriso na cara, afastou uma caixa cheia de água com o pé e abriu o portão. “Fechadura improvisada”, chamou-lhe. Afastou os brinquedos do chão e as partituras do sofá e convidou-me a sentar, enquanto carregava ao colo, com carinho, o seu filho de 9 meses. Antes de qualquer pergunta, começou logo a gesticular as mãos e a admitir a sua surpresa e agrado para com a ideia de alguém se lembrar de escrever sobre ele.


Miguel Rodrigues, agora com 32 anos, mesmo sem pensar em profissões, sabia desde garoto que “queria fazer música”. Com o piano no coração, apercebeu-se, no final do ensino básico, que queria ser pianista, “dar espetáculos, fazer concertos”. O ensino secundário articulado de música introduziu-lhe os caminhos da composição e da docência. “Todos temos a visão romântica de que não vamos dar aulas, porque uma parte de nós quer fazer apenas música, mas temos de perceber que é importante ter um horário completo”, comentou nas suas divagações.

Relembrando a criança que outrora fora, sentado ao piano a desenvolver hábitos de trabalho, admite que as infinitas horas de estudo apenas surgiram na sua juventude. Do sétimo ao nono ano, “enquanto os meus colegas iam à diversão, eu ia estudar, mas com todo o gosto”.


Carina Martins suporta esta dedicação e preocupação apaixonantes do seu marido, contudo oferece ênfase à desordem de Miguel que, comparando com a personalidade organizada da própria, a surpreende. “Deixa tudo por todo o lado, mas orienta-se na sua desorganização”.


O que para muitos poderia ser um fardo, para o músico o tempo de estudo fazia-o feliz. “Aproveitava as horas de almoço para estudar música, depois vinha da escola fazia os trabalhos de casa e ia estudar piano”. Mesmo durante os fim de semanas, altura em que os seus colegas ocupavam o tempo com atividades e se divertiam, Miguel permanecia em casa.

Para além da escola, com 14 anos começou a ser responsável por grupos corais infantis e aos 16 anos já trabalhava profissionalmente. “Estudava música clássica, mas ganhava dinheiro a tocar música de baile e ainda trabalhava como pianista em hotéis e bares.” Sexta, sábado e domingo ocupados equivaleram a pouco tempo para desenvolver amizades fora do mundo da música, já que as prioridades acabavam por ser diferentes. Embora ainda na sua juventude, “se tivesse um trabalho agendado, não poderia desmarcar”. Tantas foram as ocasiões em que o jovem músico terá estudado para testes antes de concertos e eventos.


Sem receio de experiências novas e dedicado a aprender ainda mais, iniciou a carreira de professor com apenas 18 anos. Desde serviço ao domicílio, a escolas de música particulares, até a conservatórios conceituados, Miguel Rodrigues criou confiança na comunidade das notas e dos instrumentos.


“Tem uma capacidade inexplicável de identificar os problemas dos alunos, de se ajustar à medida de cada um e resolvê-los rapidamente”, confessa Raquel Ribeiro. A antiga aluna sorri ao relembrar o carinho e a dedicação do professor Miguel em desenvolver o gosto pela música de todos os que ensinava.



As suas esperanças de um futuro profissional promissor como pianista terão sido abaladas por uma lesão na mão direita. Com somente 17 anos, o seu esqueleto ressentiu-se devido ao trabalho contínuo, o que o fez “repensar na sua vida”. A consciência de uma carreira precoce, no caso de seguir apenas piano, devido às horas intensas de estudo, fez o jovem músico ingressar num curso de canto. “Eu sabia que, se continuasse a estudar as horas todas que estudava, não ia aguentar e não acabaria o curso”.


Uma carreira entre a voz e as teclas foi o que o salvou de não poder sequer tocar. “Optei por seguir canto, mas, tendo sempre em mente que só assim poderia continuar a tocar piano”. Com um brilho nos olhos, confessa haver algo no seu interior que o chama para o seu instrumento amado, assim como uma necessidade de tocar sozinho e sentir a vibração do piano.

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