Sou Híbrida

Atualizado: 28 de Fev de 2020

Crónica por Maria Cecília Monteiro


A verdade de quem tem dupla nacionalidade é sentir que pertencemos ao mundo. Amamos a terra que nascemos mas amamos a terra que nos acolheu, duplamente. Mas, por vezes, deixamo-nos levar por opiniões do mundo, que insiste em nos dizer que não pertencemos a lugar nenhum. Mas a verdade é que pertencemos sim, não a um, mas a dois lugares.


Transitar entre os dois sotaques permite-me criar o dobro das amizades, e ser um ponto de ligação entre os meus amigos portugueses e brasileiros. Pertencer a dois lugares deu-me a chance de ter duas famílias, a de sangue, lá longe na pátria amada, e a criada no lugar que escolhi chamar de casa. Ser portuguesa e brasileira permitiu-me estar imersa em duas culturas, entender a História dos dois países a que pertenço. Até me deu a oportunidade de experimentar as duas melhores gastronomias do mundo! E não, não me consigo decidir em qual é a melhor, não vale a pena perguntar.


A verdade de quem tem dupla nacionalidade é não conseguir abdicar de uma em relação à

outra. Lidamos numa constância diária com pessoas que gostam de ameaçar as nossas pertenças: “Não nasceste aqui? Ah, então não és 100% portuguesa...” ou então “Você mora aí há 14 anos! Nem pode ser considerada mais brasileira”. A verdade é que sou os dois. Sou híbrida. Sou brasileira por nascença, mas portuguesa por escolha. Mudar de país é sempre muito difícil, ser estrangeira numa nação completamente diferente da nossa é ainda mais. Contudo, acolher em mim essa pátria, abdicar da minha nacionalidade única para torná-la dupla é o que faz isso valer a pena. Identificar-me tanto com um país novo e sentir-me tanto em casa como me sinto no meu ao ponto de recebê-lo em mim e nascer de novo.


A verdade de quem tem dupla nacionalidade é estar num contínuo dilema de onde vamos acabar a nossa vida. Tal como o foi no passado, o futuro é incerto e nunca sabemos para onde ele nos levará. Se voltaremos à origem, fixaremos as raízes onde estamos agora ou até floresceremos para uma nova terra. Apesar de não termos a certeza para onde iremos, temos sempre um lugar para voltar. Aliás, mais do que um! A nossa “casa”, para quem tem nacionalidade dupla, passa a duas. Portanto, pensem muito bem antes de apontar o dedo a uma pessoa híbrida como eu. Vão reparar que depois de tantos anos a ouvir e a ter de engolir as palavras mais brutas e insensíveis, argumentos como os que eu disse aqui e muitos outros estão na ponta da nossa língua.


Fotografia por Maria Cecília Monteiro

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