Sim. O plástico é (agora) o nosso melhor amigo

Opinião por Rúben de Matos


Não sou um cozinheiro de mão cheia. Mas consigo desenrascar-me, e até fazer alguns pratos mais elaborados. Verdade seja dita: também não preciso de meter muitas vezes em prática os meus dotes culinários. Viver na casa dos pais tem destas coisas. Quanto aos restaurantes, se é para ir almoçar ou jantar fora, é mesmo para ir ao local físico. Não há cá encomendas de comida para casa. Sair de casa, ver outras pessoas, aproveitar o ambiente do espaço. E ainda para mais sem se ter de cozinhar. É juntar o útil ao agradável. Por outro lado, se é para ficar em casa e convidar um grupo de amigos para jantar, faz-se o jantar em equipa, o que até torna o momento mais divertido. Custa-me a entender aquelas pessoas que dizem estar com um desejo enorme de comer o Risotto do melhor restaurante italiano da cidade, mas, no fim de contas, pedem para o vir entregar a casa. Ou melhor, custava-me a entender.


Nas circunstâncias em que estamos a viver as últimas semanas, já consigo entender que encomendar qualquer coisa, para se comer em casa, não é assim tão mau. Agora, mais do que nunca, pode fazer sentido. As plataformas de entrega de refeições ao domicílio também têm vindo a procurar facilitar os pedidos, abolindo, por exemplo, taxas de entrega. Eu próprio já quase me vi tentado a fazê-lo. Mas decidi não o fazer. E porquê? Primeiro, porque tenho comida suficiente em casa para assegurar refeições para os próximos dias. Segundo, talvez porque o facto de estar em casa há 3 semanas consecutivas traz ao de cima a minha faceta mais extremamente racional em todas as decisões que tomo. Vejamos aquilo que imagino ser, neste momento, a cadeia de produção da dita refeição.

Fonte: Unsplash
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Na cozinha, o chef desinfeta muito bem as mãos, prepara a refeição, coloca-a numa caixa de plástico pronta para ser enviada para a casa de alguém. Entrega-a ao rapaz que conduz a mota do restaurante e que irá trazer a refeição até ao cliente. Para assegurar essa transação, entretanto coloca umas luvas de plástico na mão para pegar na caixa e entregá-la ao rapaz. O dito rapaz, já com o seu par de luvas nas mãos, pega na caixa, coloca-a na mochila de transporte, e lá vai ele rumo à morada que lhe foi fornecida. No caminho, poucos são os carros que vê. 10 minutos e o GPS dá-lhe o sinal de que já está junto ao local de entrega. Pega na refeição, protegida dentro de uma embalagem de plástico, que por sua vez está protegida num saco de plástico, e deixa-a à porta da morada.


Ah, não pode ser! Antes, tem de deitar fora as luvas que tinha nas mãos, porque andara na rua, já tocara na mota e no telemóvel. Coloca outras luvas de plástico nas mãos. Entretanto, toca à campainha, deixa a indicação de que a encomenda já está ao pé da porta, volta à mota e vai de novo a caminho do Restaurante. Nisto, já tem uma outra encomenda à sua espera. Mas antes de pegar na nova encomenda, tem de trocar de luvas porque não só esteve outra vez na rua, como também voltara a mexer no telemóvel e na mota. Já sem incluir a embalagem e o saco de plástico, quantas luvas foram gastas na simples produção do pedido de uma refeição entregue em casa? Vamos a cálculos: uma, duas, três... já perdi a conta.


A estas embalagens e luvas de plásticos utilizadas nos restaurantes, nas farmácias, nos supermercados, juntam-se outros milhares: as dos hospitais. E quem fala em luvas, fala em batas, sacos, recipientes e frascos de desinfetante. Não gosto de falsos moralismos, portanto, não tenho quaisquer reticências em afirmar: sim, o plástico é uma chaga; sim, é o nosso melhor amigo neste momento.


Posso evitar o gasto das muitas luvas envolvidas na preparação de uma simples refeição para ser entregue ao domicílio, mas não posso evitar o uso do plástico no resto da vida. Não posso censurar nem o chef, nem o responsável das entregas por estarem simplesmente a proteger-se. Nem tão pouco os clientes que optam por esse serviço, até porque, durante o Estado de Emergência, os espaços de restauração só podem funcionar nesses moldes. Não posso censurar o funcionário do supermercado que usa luvas por estar a proteger-se. Não posso censurar os médicos que trocam de luvas e máscaras após o contacto que têm com cada doente infetado por estarem a proteger-se. Isto se existir material para esse efeito, e os profissionais de saúde possam dar-se ao luxo de o fazer.


O plástico pode, hoje, ajudar a salvar vidas humanas. As consequências ambientais continuam a existir, e, mais tarde ou mais cedo, vão fazer-se sentir. As tentativas, muitas das quais bem-sucedidas, a que temos assistido nos últimos anos de reduzir ao máximo o uso de plástico na comercialização de produtos vai, provavelmente, cair por terra. Aliás, é muito provável que depois desta pandemia o plástico continue a ser tão ou mais indispensável.


Não sei se, por exemplo, nos tempos que se seguirem a esta pandemia vamos ter de continuar a ir às compras ao supermercado de luvas de plástico nas mãos. Mas de uma coisa estou certo. Quando a normalidade regressar às nossas vidas, vamos ter 3 longas batalhas pela frente. Não só a crise económica já mais do que expectável. Não só a possível mudança na forma como nos relacionamos com os outros. Mas também o desafio de encontrar outras alternativas ao plástico, que garantam a proteção humana quando esta é necessária, mas de uma forma mais sustentável.

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