• Afonso Loureiro

"Ser terapeuta é melhorar a qualidade de vida das pessoas"

O terapeuta da fala é o profissional da saúde que previne, avalia e trata as perturbações da comunicação humana, como, por exemplo, a gaguez. Consequentemente, pode fazer a diferença, no que toca a melhorar a qualidade de vida dos cidadãos. Ana Rita Valente, terapeuta da fala há 13 anos, acredita que a sua profissão se define por “ajudar as pessoas” e melhorar “a sua qualidade de vida”.


Abordou, também, o já muito falado tema "Joacine Katar Moreira". Em resposta a quem acredita que a sua gaguez não passa de uma estratégia para chamar a atenção, o que a sociedade está a fazer é a interpretar segundo um "conceito de política".


O que significa ser terapeuta da fala?


Ser terapeuta da fala é, acima de tudo, trabalhar com pessoas. É uma das coisas que eu mais gosto de fazer. Apesar de não ser o meu trabalho constante e exclusivo, neste momento, para mim, ter ido para terapia da fala está muito relacionado com trabalhar com pessoas. Ser terapeuta também é isso: ajudar as pessoas, melhorar a sua qualidade de vida, no auge. Porque, quando as pessoas nos procuram por terem uma situação que querem melhorar e se nós conseguirmos, através da nossa forma de trabalhar, melhoramos a sua qualidade de vida. E depois, por outro lado, a importância de ser terapeuta da fala tem também muito a ver com a comunicação. Eu gosto muito de comunicar, sempre fui assim...

Costumo dizer que gosto de falar, de conversar e, portanto, juntando isto tudo e estes valores todos na minha vida encontrei aqui uma área que me preenche.


Eu acho que com a investigação podemos também contribuir muito… tudo aquilo que eu falei no início baseia-se na contribuição que a investigação dá, prestarmos um bom serviço às pessoas, ajudarmos de uma forma muito eficaz. Vem daquilo que a ciência nos diz e, portanto, eu gosto de contribuir dos dois lados. E neste momento, de facto, estou muito virada para uma maior contribuição em termos científicos. Mas gosto das duas partes, sem dúvida.


Ou seja, caso para dizer, uma mão ajuda a outra?


Sim, sem dúvida, uma coisa não se faz sem a outra. Durante muitos anos, esta área da terapia foi muito empírica, ou seja, foi muito de experiência. Não havia ainda uma base sólida que a sustentasse e então ia-se experimentando. A ciência veio trazer-nos estas respostas, e, por isso, eu gosto muito deste equilíbrio entre o fazer terapia e o estudar terapia. Se bem que, às vezes, o nosso país é um bocado assim, agora falando em termos políticos e sociais.


Ou seja, eu podia estar numa universidade, podia dar aulas, podia fazer investigação e ainda fazer algumas sessões. É uma questão de gestão pessoal, mas era possível, há vários investigadores que fazem isso. Numa semana inteira, dão aulas, dois dias ou dão aulas duas manhãs, fazem sessões terapêuticas um dia, por exemplo, ou um dia por semana e o resto estão exclusivamente para a investigação. Ou seja, é possível estar nos campos todos. Claro que é muito duro enquanto pessoa e enquanto gestor do teu tempo. Mas é possível e é bom para todos. É bom para a Ciência, porque trazes a informação da clínica. E é bom para a clínica, porque tu trazes a informação da Ciência. E esse casamento é espetacular. Mas, às vezes, o nosso país e a nossa política fazem com que tu tenhas que escolher entre uma coisa ou outra. Tem que se ir fazendo o caminho.


O que é te levou a escolheres essa profissão?


Bem, foi exatamente isso que disse: o gostar de comunicar, o gostar de trabalhar com pessoas, de contribuir, de ter um papel na vida das pessoas. O ajudar é uma coisa que faz parte da minha vida há muitos anos. Vem muito da minha família, de facto, sempre fomos educados cá em casa assim: a ajudar e a sermos ajudados…


Há quanto tempo és terapeuta?


Eu sou terapeuta desde 2006, portanto, há 13 anos. Sou da altura em que a terapia da fala e a fisioterapia tinham uma coisa chamada “licenciaturas bietápicas”. Ou seja, eu fui bacharel, que é antes da licenciatura. Isso já não existe, sequer, no nosso sistema universitário. Eu sou terapeuta da fala, licenciada, desde 2007. E depois, entretanto, fiz o meu percurso: mestrado, doutoramento, tudo isso.


Desde que começaste, em 2006, o que é que achas que mais mudou na área? Quais as maiores diferenças na tua profissão e no teu modus operandi?


Uma das coisas que mais mudou foi o facto de eu cada vez gostar mais de fazer investigação e de contribuir para ela, sem dúvida nenhuma. Foi um gosto que me começou a vir na licenciatura, indubitavelmente. Eu queria muito estar na universidade a dar aulas. Eu já pensava nisso durante os anos da universidade.


Eu estava sentada deste lado, enquanto aluna e olhava para alguns professores e que eram tão inspiradores e eu pensava “Caramba, eu também quero ser assim… Ok, eu quero trabalhar, não sei ainda em que área”, mas sabia que teria que ser uma área que eu gostasse muito. A paixão, como eu estava a dizer, foi surgindo ao longo dos anos. Mas havia uma coisa que eu queria: “Eu quero estar daquele lado a falar sobre uma área com aquela paixão com que aquelas pessoas me estão a inspirar neste momento. Eu quero inspirar outros...”.


O que mais mudou foi o gosto pela investigação e a paixão pela gaguez, que foi surgindo, de uma forma muito particular. Eu lembro-me que foi surgindo e foi também estratégico, assumo. Ou seja, quando eu tive que estudar no meu mestrado, as cadeiras-base e depois na altura em que tinha que escrever a dissertação e fazer o meu projeto de investigação, eu pensei “Eu quero ser diferente… Quero investir numa área onde haja pouco investimento”.

Como eu não gosto de fazer só uma coisa na vida ou não gosto de ser só uma coisa, para mim, é ouro sobre azul, conseguir ser várias. Dentro da mesma semana consigo fazer várias coisas e isso, para mim, é ótimo. As pessoas que me inspiraram tornaram-se minhas colegas e isso é muito bom e gratificante. Tornaram-se pessoas com quem eu cresci, com quem colaboro, faço investigação e isso é muito bom. Só tenho mesmo a agradecer. O percurso tem sido tão bonito.


A propósito do que falaste, achas que, hoje em dia, a sociedade já entende bem os problemas da fala e já os aceita ou ainda há preconceito?


Acho que falta muito conhecimento… Se tu fosses pela rua perguntar o que é um terapeuta da fala ou o que faz um terapeuta da fala, as pessoas não iriam ser capazes de dizer. E aí falta o conhecimento… Apesar de já ter havido imensas campanhas de divulgação. Os terapeutas aparecem na televisão, hoje em dia. Isso foi um crescimento ao longo da última década, aparecem nos meios de comunicação, estão nas redes sociais e investem, também, na divulgação da profissão. Mas claro, ainda falta muita coisa, ainda há muitos estereótipos… Falando especificamente sobre a gaguez, há muito conhecimento que não é correto.


Fizemos um bom caminho, mas temos ainda muito pela frente. As crianças são encaminhadas, a maior parte delas, de uma forma muito mais precoce para o terapeuta da fala, o que não existia há 10 ou 15 anos atrás. Hoje, os terapeutas já trabalham na prevenção, que é onde se deve apostar e investir. Antes da patologia aparecer, vamos prevenir, vamos explicar às pessoas os sinais aos quais devem estar atentas, para encaminhar de uma forma célere. E a sociedade em geral acaba por ter o conhecimento que tem, algum errado, completamente errado. E a gaguez é um grande exemplo disso, sem dúvida nenhuma.


Por exemplo, temos agora uma deputada que tem gaguez, a Joacine Katar Moreira. Quer se goste, quer não se goste da ideologia política dela – que eu não tenho que gostar daquilo que ela defende - é uma pessoa que gagueja! E estares a ver todos os dias memes a gozarem com ela, é preconceituoso, é estúpido, não há outro termo. É uma característica como qualquer outra, não é para gozar. Ela está ali a comunicar, a passar as ideias dela. Tem dificuldades em comunicá-las? Em algum ponto, tem dificuldade. Se isso é razão para estar a gozar com ela? Não, claro que não, obviamente. Eu vou de carro para a universidade, diariamente e costumo ouvir a Antena 3, por exemplo. A Antena 3 tem uma rubrica que é o Portugalex, de humor. Houve uma semana a imitarem a Joacine Katar Moreira todos os dias… Houve a circular uma gravação dela, em que estava muito zangada com o partido. E, então, essa semana ouvi o Portugalex, não todos os dias, mas das quatro vezes que ouvi, houve imitações da Joacine. Chega, não é?


Há muita gente que coloca a hipótese de ela não ser gaga, sequer, e de estar a fingir para chamar a atenção. O que achas disso?


Isso vai ao encontro da tua outra questão. Se a sociedade ainda tem preconceito ou se ainda lhe falta muito conhecimento. Isto é uma clara prova de que a sociedade não sabe. Não sabe e não conhece uma das principais características da gaguez, que se chama variabilidade.


Há dias ou até dentro do mesmo dia em que existem situações em que a pessoa que gagueja é super fluente, não gagueja uma única vez, e acontece isso a todas as pessoas que gaguejam. E, noutro momento a seguir, está noutra situação, a falar sobre outro assunto e a falar com outra pessoa, e, de repente, aparecem vários momentos de gaguez, com os quais não consegue lidar tão bem.


Ou seja, esta palavra – “variabilidade” – é das coisas mais difíceis que a pessoa que gagueja tem que lidar e que os terapeutas têm de trabalhar, sem dúvida. Obviamente que contactar com um fenómeno que é variável é muito difícil… e que a sociedade não conhece. Não conhece e interpreta logo segundo um “conceito de política”… Nós temos sempre aquele conceito de política de “são uns ladrões, são uns mentirosos, são uns não sei das quantas”. E se temos aqui uma deputada nova, que tem uma característica diferente, gagueja, “À mas se ela é deputada, ela está a mentir, de certeza”: começa-se logo a colar a mentira a esta pessoa. E, para além disso, aquilo que eu costumo dizer é: ninguém no seu perfeito juízo quereria mentir dessa forma. Gaguejar é difícil e psicologicamente afeta muito. É desgastante. Para além disso, mesmo dentro da variabilidade da gaguez, há pessoas que são mais variáveis e pessoas que são menos variáveis. A dela é muito variável. Ela está a ter um acompanhamento terapêutico, com uma excelente terapeuta da fala e a fazer o seu caminho.


Portanto, ajudava mais e nós seríamos mais sociedade e mais humanos se não pensássemos dessa maneira, se escutássemos. O que temos que fazer é escutar as pessoas, independentemente da forma como elas falem. Eu sei que é difícil, mas o conteúdo daquilo que ela tem a passar é importante. Ela é forte, é muito resolvida e tem os seus valores bem concretizados. Ela merece ser ouvida, como qualquer um de nós.

A deputada: Joacine Katar Moreira

Para terminar, gostaria de te perguntar que conselho ou recomendação é que tens a dar a alguém que também gostasse de seguir as tuas pisadas e de se tornar um terapeuta da fala.


Primeira coisa: que tenha gosto em comunicar, que tenha gosto em ajudar as pessoas, acima de tudo. Que esteja disponível para estudar. E que, principalmente, vá ver um terapeuta da fala a trabalhar, por exemplo. É muito importante.


As pessoas não sabem muito bem o que faz um terapeuta da fala. Por isso, falem com terapeutas da fala, falem com profissionais da área, percebam o que é que eles fazem.

Outro conselho: não se cinjam àquilo que vos é dado. Estudem mais, sejam criativos. Queiram mais… É isso que eu digo muitas vezes aos meus alunos.


Não sejam “terapeutaszinhos”, não queiram ser “mais um”. Queiram ser diferentes, ambiciosos… Invistam na vossa formação, mas, acima de tudo, sejam criativos. Dentro desta profissão há imensas coisas que podem fazer e muita coisa que ainda pode ser feita. Mas sejam bons profissionais, acima de tudo.

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