• Catarina Magalhães

Que nunca se deixe de cantar a liberdade

Livro no colo, espírito livre. Hoje, sai-se de casa sem se mexer do sofá. Raros são os que visitam mundos através do aroma das folhas dos livros. Muitos navegam por “mares nunca dantes navegados” através das janelas dos seus computadores.


Em casa, como manda o bom senso (e recomenda o Estado de Emergência), celebra-se a liberdade. A liberdade de um confinamento que o é, no seu sentido mais nobre, pela defesa do valor da vida. Com uma chávena de café nas mãos, acena-se para o vazio das ruas, no aconchego de casa. Um aconchego que, para alguns, é como uma prisão, como a gaiola o é para um pássaro.


Agora, separados, nunca quisemos tanto dar as mãos. A ânsia ilustrada no olhar de quem sente a sofreguidão dos dias que, à medida que o tempo corre, parecem sempre iguais. No sossego das nossas casas e no desassossego das nossas mentes, há uma luta diária por uma liberdade que ecoa à nossa porta. Como agora desejaríamos ser os cravos vermelhos que simbolizaram a luta de um povo… que, agora, guerreia nas trincheiras de suas casas.


25. Vinte e cinco. A nossa relação com os números, na sua dose desmedida diária, nunca esteve tão próxima. O q.b. de batimentos cardíacos que nos tentam acalmar e sussurrar que “vai ficar tudo bem”. Daríamos tudo para nos deitarmos na relva e, com calma e paciência, contar as estrelas que vemos no céu. Os números que, para uma inocente criança, são os únicos que valem a pena contar.


“O essencial é invisível aos olhos” avisava o escritor da terra da liberdade, Antoine Saint-Exupéry. Nunca, como agora, essa invisibilidade se mostrou tão frígida e cruel. Sem correntes físicas, mas fronteiras que estão cada vez mais controladas, olhamos, com inveja, os pássaros que cantam a sua liberdade.


Se hoje ligarmos a rádio, não vai estar a cantar Zeca Afonso, mas “Grândola Vila Morena” vai soar nas entrelinhas. Assim como Camões, Pessoa e Saramago estão na ponta da nossa língua, quando se fala do espírito da liberdade (e da saudade) portuguesa.


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