Os falantes

Por Filipe Silva


Cena II


Interior; Taverna Safira

Lúcia; Irilen


L: Irilen, minha querida amiga! Bons olhos te vejam!


I: Não existem olhos mais bondosos do que os teus, minha adorada viajante divina. Que o teu Deus invoque em ti mil e uma proteções.


L: Ele invoca-as em todos nós. Tem-las sentido na tua vida?


I: Nem por isso. À parte de não me considerar uma serva devota, a minha pesquisa estagnou e os meus pais pressionam um casamento de sonho, mas que não é o meu. Eu já me casei há muitos anos com a lenda que amo, com a promessa de me tornar uma Falante, de escrever o meu destino sem limitações sociais, financeiras ou mesmo as inerentes à condição humana. É o casamento que o meu avô tinha e o que eu sempre desejei para mim mesma. Uma relação, até agora, fria e unilateral. As palavras, os relatos e os sonhos chamam por mim no horizonte, mantêm-me acordada à noite e eu aqui: incapaz de ir ter com elas. Ah se eu tivesse vontade… mais vontade de as ouvir, eu iria! Mas onde? É tudo tão incerto na lenda e ninguém se digna a investigar sem ser eu. É um fardo pesadíssimo. Ingente!


L: Correndo o risco de repetir o que decerto já ouviste, a minha vontade de ajudar quem precisa leva-me a perguntar: será este o teu caminho? Nem sequer consideras assentar com um bom homem, continuar o negócio da família e veres os teus filhos crescer?


I: Não preciso de nenhum homem ou mulher para me completar, sei que o meu papel é lutar pela verdade. Quanto ao negócio, confesso que o hábito me tornou mestre em servir e entreter, mas não é destino que me encante. Por último, filhos… Não entendes, Lúcia? Se eu me tornar Falante, todos serão os meus filhos. Criarei vidas, percursos e mortes. Acompanharei todos do início ao fim sempre com um olhar distante de uma mãe que os deixa viver. O olhar de uma autora que se deixa levar pelo enredo. Já considerei diversas possibilidades para o meu futuro e só me vejo a seguir um rumo. O rumo que o meu avô percorreu há anos… seguirei as suas pegadas e não serei presa pelo mundo dos Homens.


L: Respeito a tua convicção. Se há algo que aprendi é que algumas pessoas não mudam e não há nada que eu possa fazer. Enfim, parece que estás errada num aspeto: não és a única interessada sobre a lenda dos Falantes. A minha Senhora, a ilustre Isabel Solar, pediu-me para te convidar ao Torreão. Como honrada vassala, aqui estou e, mais importante, como tua amiga também.


I: Perdoa-me se não quiser falar com tal personalidade. Sabes bem que ela ajudou à expulsão do meu avô. Aquele Torreão é suposto representar o conhecimento, não tinham o direito de o julgar por acreditar em lendas e magia. Não foi o fogo outrora um feitiço? Ou vermos o nosso reflexo num espelho? Não… esses sábios do Torreão só conhecem o mundo dos livros e das muralhas, estão limitados pela própria arrogância! Sabem debitar todos os rios do mundo, mas nunca os viram.


L: Nem tu, Irilen! Eu já. Eu e o Afonso percorremos o mundo. O Bom, o Mau e o que fica entre eles… dou-te a minha palavra em como a Isabel te convida por Bem! Por favor… ainda agora estavas a lamuriar seres a única atrás dos Falantes. Tens aqui a oportunidade de ver o que os outros sabem, ou então de ir até ao último piso do Torreão e dares uma lição à mulher mais inteligente do Império! Juro por Deus que não te arrependerás e que será um ponto de viragem na tua vida. Não desperdices esta oportunidade.


I: Far-te-ei esse gesto por amizade, já que tanto insistes e porque te devo o respeito que me demonstras. Sinto que até podes ter razão. Existe essa possibilidade, mas continuo algo convicta de que será uma perda de tempo.


L: Ah graças a Deus que alguém me ouve! Bom, preciso de impedir, ou tentar impedir, o meu irmão de beber o estabelecimento inteiro. Espero notícias tuas. Boas notícias.


*Ilustração por @art.by_ili

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