Os Falantes

Por Filipe Silva



Cena I



Interior; Taverna Safira

Afonso; Lúcia


Os irmãos entram na Taverna Safira após mais uma viagem e sentam-se numa mesa redonda em lados opostos.


Afonso: Ah, minha querida irmã! Que melhor destino haverá para dois aventureiros como nós do que o ponto de partida? Do que o momento antes do primeiro passo? Aqui, nesta mesma mesa, nesta mesma casa, mas com o coração saciado do Bem e a minha espada manchada pelo sangue dos malfeitores! Tomás, uma cerveja!


Lúcia: Celebras demasiado, irmão. Deverei relembrar-te de todos aqueles que continuam a sofrer enquanto saboreias tal líquido profano? Daqueles vilões que nos querem ver sete palmos debaixo de terra? E quanto ao nosso destino... bom, o nosso destino é o horizonte e a nossa missão divina é ajudar os inocentes e castigar os malditos pelo caminho.


A: Haverá sempre horizonte. Porém agora há sede e cansaço, pedras no sapato de qualquer bom caminhante, mas que podem ser remediados aqui mesmo, na Taverna Safira. Ah... nenhum outro lugar da capital ou do Império se compara a estas paredes onde, ao longo dos últimos dez anos, heróis como nós - porém, não tão heróicos - se reúnem e relatam, invejam e idolatram as suas histórias, quer sejam elas mentira ou verdade. O que importa é a história e o heroísmo, a bravura e o carisma!


L: Não gosto de mentiras e farsas...


A: Pois então e se um nobre cruzado se ajoelhar e te dedicar versos belos, dizendo que a tua beleza invoca o sol dia após dia, que os teus passos gentis acordam as flores e que as canções dos pássaros são sobre ti e sobre ti apenas?


L: Isso não seria mentira, irmão. Se existisse tal cruzado...


A: Assumindo que existe um cruzado cego - brinco -, essa seria a sua verdade. Existem outros que discordariam e que teriam outras supostas verdades. Eu cá tenho a minha verdade, a minha vida, os meus desejos... e desejo... Tomás! Traga mais uma!


L: Irmão, bebes demais.


A: Disparates! Bebo por mim, por ti e por Deus!


L: Não invoques o Seu nome em vão! E, por amor de Deus, para de beber! Lembra-te, viemos aqui visitá-la.


A: Tu. Tu vieste aqui visitá-la. Eu vim causar inveja noutros aventureiros menos afortunados, vim beber e comer, vim viver e poisar a espada por umas noites. Tu, querida, adorada, bela, sóbria irmã... tu falas com a Irilen.


L: Ela sempre nos ajudou e é nossa amiga. Não percebo o porquê de tal afastamento.


A: Sabes bem que não me fascino por pessoas obcecadas. Tu és minha irmã e eu tolero, por obrigação, o teu amigo imaginário. Mas a Irilen não me é irmã, tia ou prima. Os amigos imaginários dela são estranhos e eu não quero ter nada a ver com eles.


L: Que ninguém ouça as tuas heresias. Quanto à Irilen... Compreendo a sua procura e espero que um dia encontre a resposta para ela e para o seu avô, Deus tenha piedade na sua alma. Os Falantes, essa lenda embruxada, são a sua única herança e já muitas foram as tentativas em vão de a dissuadir.


A: Só tenho pena do seu próprio pai, Tomás... Tomás! Mais uma!


L: Desisto. Bebe, enfrasca-te e afoga-te! Fosse o mar cerveja, já o terias engolido há muito e dessa gula não há quem te salve!


A: Conto contigo para me purgares a alma no meu leito, irmã... ATÉ LÁ beberei! (repara que Irilen chega) Olha quem desce as escadas. É a Irilen. Vai, aqui te espero.



*Ilustração por @art.by_ili


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