Os desenhos animados não são só para crianças

Crónica por Iliane Soares


Desde criança que nunca fui grande fã de desenhar o que me mandavam. Era sempre o mesmo esquema: uma casa, uma árvore, um sol e, claro, as infames nuvens azuis. Oh, como detestava que me pusessem a desenhar nuvens azuis! E que lógica tinha? Não podia desenhar a Sakura Kinomoto com um dos seus fatos maravilhosos, de bastão em punho, pronta a caçar cartas, porque era algo “que não existia”. No entanto, via-me obrigada a fazer nuvens azuis. O meu eu de seis anos não conseguia compreender, do mesmo modo que as minhas educadoras não compreendiam como era possível que, naquela idade, conseguisse desenhar um ser humano com pescoço, curvas e uma fisionomia que se assemelhasse, de facto, a um ser humano. Tudo isto tem uma explicação - os desenhos animados.


Nunca escondi que sempre que tinha de escolher um filme ou um série para ver, a minha curiosidade sempre recaía nos que se inserissem na categoria de animação. Há um conjunto de fatores que apenas este género possui e que o torna tão característico e único - não é por acaso que, na sua generalidade, são categorizados como sendo do género familiar. O problema é quando se perpetua a ideia de que os desenhos animados não devem passar do mero “ah, é engraçado” para os adultos porque, francamente, adultos não podem chorar com bonecos.


E porquê este estigma? Porque é que, a partir de certa idade, se tornou menos admissível desfrutar de um bom filme ou série pelo simples facto de serem de animação? Sabendo nós que nos foram dadas imensas provas de que é um nicho que vale a pena explorar e com qualidade certificada?


Desde o início dos tempos que o ser humano encontrou nos desenhos, nos “bonecos”, uma forma de comunicação. Isto remonta à pré-história, altura em que, como bem sabemos, era na elaboração de pinturas rupestres que se contavam os feitos, bem como o dia-a-dia vivido. Mais tarde, em vasos de cerâmica na Grécia Antiga; ou no Japão, no período Nara (século VIII d.C.), nos emakimono, que, tomando a forma de rolos de pintura, se juntavam textos e desenhos. Isto continuou até chegarmos às primeiras histórias de quadradinhos e, mais adiante, aos filmes de animação, mas posso adiantar que os conteúdos destas primeiras formas de narrativa utilizando desenhos, não eram propriamente adequados a toda a família. O único objetivo por trás destas obras era contar uma história, tendo sido mantido até aos dias de hoje, apesar de se terem desenvolvido imensas ramificações. Sendo assim, é seguro dizer que a animação sempre acompanhou o ser humano, tendo desde cedo captado a sua atenção.


Com a chegada dos primeiros filmes animados, percebeu-se o impacto que uma película deste género poderia ter. “Branca de Neve e os Sete Anões” (1937) - a adaptação de Walt Disney do conto dos irmãos Grimm - arrecadou um Oscar Honorário por ter sido considerado um pioneiro no entretenimento e uma inovação, abrindo caminho para novas formas de produção de sétima arte. Depois deste que foi o filme que trouxe luz a uma categoria em ascensão, tivemos “Who Framed Roger Rabbit” (1987) a ser galardoado em 1988 e “Toy Story” (1995) a levar a estatueta dourada em 1996. Foi finalmente em 2002 que a Academia, com o desenvolvimento da indústria da animação e o crescimento de estúdios como a Pixar e a DreamWorks, resolveu criar a categoria de “Melhor Filme de Animação”, uma categoria própria para este que era um género que já tinha dado provas que teria pernas para andar.


Mais tarde, em 2016, um dos maiores marcos na animação aconteceria. “Inside Out” (2015) da Pixar foi nomeado, a par com a habitual categoria de “Melhor Filme de Animação”, para “Melhor Argumento Original”. Isto pôde mostrar que não seria pelo facto de uma história estar a ser contada através de desenhos animados que passaria a ser uma história mais básica ou infantil, desprovida de conteúdo que pudesse apelar a um público mais adulto. E não me refiro a piadas subliminares, ou momentos que são do agrado de todas as idades, mas sim de uma narrativa que toque e diga muito a respeito do adulto que a está a acompanhar, ou a uma animação que arrebate o espectador e o deixe a magicar sobre os aspetos técnicos e o que estará por trás de toda aquela produção.


O olhar atento e cuidadoso de um artista tem o poder de criar uma obra inesquecível e de ficar para sempre no nosso mundo.

É certo que ao longo dos anos tem-se ganho alguma consciência para o que são os desenhos animados no universo dos adultos, sobretudo sob a forma de séries. Fenómenos como: “Rick And Morty”; “BoJack Horseman”; “South Park”; “Midnight Gospell”, fora tantos outros, têm aberto um pouco da janela que se achava fechada no que diz respeito à animação. Mas, nestes casos, parece haver uma admissibilidade e um certo encorajamento para que se consuma este tipo de conteúdo. Está especialmente direcionado a adultos. Mas e quando o público alvo não é tão exclusivo? Quando se pressupõe que quem devia ver tais séries são crianças ou adolescentes e, no entanto, é um adulto que as assiste? Surge o estigma. São olhados de lado como se não tivessem ultrapassado uma fase, como se não tivessem amadurecido. O espanto e o olhar de reprovação quando um jovem adulto se deslumbra a ver um episódios de “Gravity Falls”, de “Over The Garden Wall”, ou até de “Adventure Time”. E claro, isto falando de cartoons, a animação ocidental, porque se estivermos a falar dos famosos animé, gera-se o caos.


Demasiado violento e obsceno para crianças, demasiado imaturo para adultos, claramente um produto para ficar retido numa fase das nossas vidas. O que não é bem assim. Como no mundo das séries, o espectro existente na animação, sobretudo na nipónica, é enorme, havendo espaço para todos os géneros e faixas etárias. E, como tal, haverá lugar para boas e más séries, mas o que é certo, é que não tem de ser algo deixado numa fase.


"Fullmetal Alchemist: Brotherhood" (2009)


Foi com os animé que dei os meus primeiros passos no desenho, na escrita, na construção de narrativas. Foi este formato que me permitiu dar asas à minha imaginação em criança e abrir a minha mente na adolescência e na vida adulta. Obras como: “Fullmetal Alchemist"; "Brotherhood”; “Neon Genesis Evangelion”; “Death Parade” conseguiram meter em cima da mesa temas como: o racismo; o abuso de poder; distúrbios do foro psicológico; o confronto de valores; questões sobre a dignidade humana; a vida e a morte de forma tão perfeita que posso dizer que estes são exemplos em que a animação alcançou uma representação do ser humano mais precisa do que em muitas séries em live action. Por vezes, é através do filtro da animação que vemos situações da atualidade, problemas que vivemos no dia a dia a terem uma solução, acabando por nos conferir uma segurança. O sentimento de que estamos a ser compreendidos e que, por muito mal que o dia tenha corrido, por muito que a vida esteja a tomar um rumo mais complicado, temos aquela companhia e uma resposta para um problema que, simplesmentem foi encarado sob outro ponto de vista. Isto porque, no fundo, a animação pode ser o reflexo do mundo em que vivemos sob a forma de uma realidade paralela, num mundo de fantasia que, apesar de irreal, diz muito mais sobre nós seres humanos do que algumas obras extra realistas.


Já o mestre Hayao Miyazaki defendia que quando se pretende criar um animé não devemos utilizar outros como exemplo, mas sim o mundo que nos rodeia, pessoas reais. Isso é algo que me faz admirar ainda mais o mundo da animação. O olhar atento e cuidadoso de um artista tem o poder de criar uma obra inesquecível e de ficar para sempre no nosso mundo. Um legado tão poderoso como belo. Portanto, sim, ainda hoje não aprecio desenhar nuvens azuis, mas guardo em mim a certeza de que com a criatividade e o olhar certo, é possível contar uma bela história com elas.


0 comentário
Contacto
  • Facebook
  • Instagram
  • Ícone cinza LinkedIn
  • Grey Twitter Ícone
This site was designed with the
.com
website builder. Create your website today.
Start Now