• Tomás Barros

Odisseia do pensamento

Atualizado: 24 de Mai de 2020

Já abracei esta loucura que é tentar manter-se são. Penso se não seria simplesmente melhor deixar-me perder e navegar a vastidão de pensamentos que se acoplaram, por fim, na amarelada mente que os já tinha concebido em tempos menos atrozes. Procuro razões para não me deixar ir, as responsabilidades, para com os outros. Porque se forem somente as para comigo, não as tenho como motivo suficiente para fingir que está tudo bem.


O amor que ainda existe é, por esta altura, tão distante que se torna difícil de sentir. Por isso não é fácil vivê-lo, se é que se vive. Esses sentimentos são agora vilmente transmitidos, sem justiça, por um ecrã, através de mensagens ou vídeos. O distanciamento das emoções é o mesmo que se encontra num livro, ou num filme, não encontro diferença. Uma realidade que podia muito bem não o ser.


Quero muito acreditar naquilo que leio, observo e ouço, mas como poderei eu distinguir isso de uma emoção generalizada, criada por ficção, ou que retrata o que outrora era a realidade do dia-a-dia? Temo estar mesmo a ler um livro, a querer envolver-me num mundo e criar uma ligação com estas personagens que representam os laços a que estava habituado. Há demasiado tempo que não há algo de palpável, demasiado o suficiente para achar que tudo é algo de natureza geral e não pessoal. Perdemos os gestos e o apreço demonstrado em pequenas ações como um aperto de mão, uma palmada nas costas. Sentir a perna de alguém sentado ao nosso lado, o calor emanado e a sua ganga a roçar na nossa. Perdi o toque.


Sinto que estou a viver a minha própria “Odisseia”, sentado a navegar na cadeira da minha secretária. Sem rumo e errante, encontro paisagens que jamais queria ter posto a vista em cima. Deparo-me a combater Heitores do pensamento na minha mente que, por esta altura, já é Troia nos seus últimos dias de cerco, faminta. Queria ser Aquiles, no entanto sinto-me forrado por toda a pele que constituía o seu calcanhar menos virtuoso.


Sou um protótipo de guerreiro que luta interiormente para encontrar uma razão por que lutar. Camões, se calhar, equivocou-se a cantar o peito ilustre lusitano, não existe a definição de lusitano nesta guerra de cada um por si, não existe herói coletivo. Existem, sim, uma série de intervenientes errantes, que vivem para saciar o seu desejo por um pedaço de uma Ilha dos Amores que poderá nunca mais surgir.


Desafio, o derradeiro, é ter a capacidade, coragem e força para nos soltarmos destas correntes invisíveis. Como voltar ao normal depois da reabilitação? Como não se deixar sedimentar? Como não perder essa fome?


Tornou-se ainda mais real, esse pesadelo que vinca a vontade. Será, contudo, realista admitir que estamos todos a ser sugados a conta gotas desse elixir catalisador da progressão? Comparo este ambiente a uma sanguessuga. Também estas eram creditadas de terem propriedades medicinais, noutros tempos, de peste. Peste negra.

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