• Mafalda Pereira

O vírus da Humanidade

“Não consigo respirar!”. Foram estas as últimas palavras de George Floyd, morto por um polícia de Minneapolis, no estado de Minnesota, nos EUA. Em 2014, foi também esta a última frase proferida por Eric Garner, antes de perder a vida ao ser asfixiado por um oficial da New York City Police Department. Efetivamente, há comportamentos tão cruéis, que chega a ser difícil aceitar que realmente aconteceram. Um corpo policial é, para muitos, um símbolo de segurança. Representa uma entidade que deve (supostamente) garantir a ordem e tranquilidade das sociedades. Pôr fim à vida de uma pessoa, seja ela qual for, é inaceitável. Mas esta é uma questão ainda mais complexa. 


Estes dois casos, para além de se tratarem de homicídios cometidos por parte de agentes, envolvem, ambos, homens negros. Falo de dois casos, mas poderiam ser enumeradas centenas de ocorrências com cenário e fim semelhantes. É lamentável, num mundo que se diz global e multicultural, num país que se diz ser tão desenvolvido como os EUA, haver, ainda, mentalidades tremendamente perniciosas.


Os EUA dos filmes, onde a realidade é ilustrada de forma diferente. Os EUA das ruas bonitas, que hoje se enchem de chamas, pelos que tentam vingar o assassinato mais recente, cometido um polícia, com motivações raciais. Uma América dominada pelo medo, medo das autoridades e onde é legal possuir uma arma. Um país desenvolvido, cheio de personalidades que pararam no tempo.


Protestos nas ruas dos EUA pela morte de George Floyd

Fonte: Expresso


Também nas redes sociais os protestos se fizeram e fazem ouvir. As hashtags #BlackLivesMatter, #ICantBreathe, #JusticeForGeorgeFloyd, #StopKillingBlackPeople, invadiram os ecrãs e são muitas as palavras que procuram defender os que não merecem sofrer de discriminação. Em contextos como estes, as palavras podem funcionar como uma grande arma. 


O jornalismo, sendo um serviço público, surge como espaço de reflexão e partilha de palavras. Na madrugada desta sexta-feira, um jornalista (negro) da CNN, bem como a equipa de reportagem, foram detidos em direto, enquanto cobriam as manifestações, derivadas do assassinato, em Minneapolis. Foram detidos por estar a fazer o seu trabalho, mesmo estando identificados. É certo que, mais tarde, foram libertados, mas esta é uma clara violação aos direitos de liberdade de imprensa e acesso às fontes de informação.


Vivemos num mundo que luta tanto pela igualdade, mas que, afinal, está tão longe de alcançá-la. “Ser negro na América não deve ser equivalente a uma sentença de morte”, defende o presidente da câmara de Minneapolis, Jacob Frey. Nem na América, nem em nenhuma parte do globo. Falo dos EUA, mas engana-se quem pensa que isto é um problema “lá das Américas”. Há vestígios de racismo por todo o mundo. Ser negro não pode significar dizer adeus a oportunidades, ou até à própria vida. 


Pensemos, nós que não nos encontramos nesta posição, naqueles que a sentem na pele todos os dias. Não o conseguimos sentir, mas conseguimos perceber como é injusto viver sob estas circunstâncias. Nas mãos de cada um de nós está o poder de mudar esta conceção tão nociva que mora nas nossas sociedades. Estas não são frases ditas por serem bonitas ou moralmente corretas, são, sim, frases sentidas. É um pesar no coração por pensar que alguém tão igual a mim, pode ser tão discriminado. Alguém que pisa a mesma calçada que eu não poder desfrutar do verdadeiro significado de deambular. Não se sentir como eu me sinto e viver na sombra do preconceito. É cruel. 


Já li isto em vários sítios e é mesmo a verdade: enfrentamos uma situação de pandemia global, mas paira no ar um vírus cuja cura ainda vai ser mais difícil de encontrar - o racismo. Quando vai acabar? 


“Please I can’t breath. My stomach hurts. My neck hurts. Everything hurts. They’re going to kill me”, George Floyd
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