O vírus da desinformação em tempos de quarentena

Opinião por Inês Amaral


As redes sociais são naturalmente um importante termómetro social, seja de audiências internacionais, nacionais ou locais. Mas a sua apropriação pelos vários atores que atuam na e em rede induz, mesmo que que involuntariamente, a transmissão de conteúdos/opiniões mediadas por gatekeepers não profissionais. A distorção da realidade é comum. Disseminar em massa conteúdos com mensagens deturpadas ou falsas é prática regular na Internet.


Os tempos que vivemos são complexos e de incerteza. Perante o desconhecido, o medo é inimigo das populações. E as narrativas que preenchem os múltiplos ecrãs de consumo mediático constroem e reconstroem a realidade várias vezes. À procura das partilhas virais e dos likes, surgem inúmeras informações falsas na rede que lançam o pânico.


As redes sociais estão repletas de desinformação. Apesar da informação fidedigna disponível online nos canais oficiais das entidades de saúde pública e do Governo, ainda há milhares de grupos no Facebook e no WhatsApp a disseminar informação falsa. Levantam-se suspeitas. Repetem-se mentiras até que estas se tornem verdade. Circulam boatos, falsos áudios e até informação verdadeira mas descontextualizada o que tem dado origem a autênticas “caça às bruxas”. Contas que nos dizem que num fim de semana os números de infetados em Portugal passam dos 1020 para 70 mil, pessoas que conhecem alguém que conhece alguém que disse que o vírus sobrevive uma semana em superfícies, falsos meios de comunicação que anunciam centenas de mortes que o Governo oculta... são só e apenas alguns dos logros que circulam online em redes de redes que alcançam centenas de milhares de pessoas que acreditam, porque o conteúdo tem algo de verdadeiro ou apela às emoções. E, nessa lógica, as partilhas são seletivas. Ou seja, as pessoas tendem a partilhar conteúdos que estejam alinhados com as suas crenças, atitudes e comportamentos, rejeitando o que é contraditório. E rapidamente surgem as bolhas de filtro, condicionando o acesso à informação.


As redes sociais têm sido utilizadas essencialmente em duas perspetivas: a dos streamings de conteúdos indexados no Twitter (#covid19pt, #ficaemcasa, #staythefuckhome) e a interação e promoção de conteúdo visual no Facebook e no Instagram. As restantes plataformas têm essencialmente repositórios de conteúdos, como o YouTube, ou espaços de comunicação permanente e disseminação de memes (WhatsApp). O epicentro da desinformação tem sido o WhatsApp e Facebook. No entanto, a utilização do Twitter e do Instagram está a ser crucial na medida em que grupos mais pequenos, mas com maior influência, porque conseguem gerir conteúdos naquela plataforma e disseminá-los massivamente noutras, o que permite ampliar significativamente as audiências. Nestas plataformas, a mensagem distorcida é mais fácil de disseminar porque a indexação de conteúdos dispersa e sem contexto acaba por identificar mais os conteúdos do que os indexa. Os influenciadores (como verdadeiros profissionais) têm assumido um papel muito relevante: tornar conteúdos virais e gerar buzz em torno destes. As redes sociais têm também sido uma importante ferramenta nas estratégias de comunicação das entidades de saúde pública e do Governo.


"as pessoas tendem a partilhar conteúdos que estejam alinhados com as suas crenças, atitudes e comportamentos, rejeitando o que é contraditório. E rapidamente surgem as bolhas de filtro, condicionando o acesso à informação."

As hashtags entraram nos conteúdos e cartazes informativos. A velocidade de transmissão da informação e integração de audiências de audiências com redes múltiplas obrigaram os media profissionais a uma estratégia mais dinâmica. Os media, agora audiências dos outros atores profissionais nas redes sociais, acompanharam a tendência com a criação de “ao minuto” para acompanhar informações de última hora; notícias nacionais e internacionais relacionadas com o #covid19; análises ao minuto numa lógica de Twitter; fact checking quase tempo real.


As redes sociais que se geram na Internet promovem a participação do público, mesmo que a discussão crítica ainda não seja um fenómeno efetivo. Mas o poder de mobilização da Internet enquanto possibilidade latente é, em simultâneo, também uma evidência. Neste sentido, a ligação dos media profissionais aos utilizadores comuns fica muito marcada pelas informações publicadas e amplamente partilhadas sobre o número de infetados, número de mortes (em Portugal e no resto da Europa, em particular), informações úteis sobre medidas de proteção social e guias para sobreviver à quarentena. No entanto, a dificuldade em compreender o que são media profissionais e o que são meios de comunicação falsos continua a evidenciar-se. Também parece cada vez mais difícil que os utilizadores procurem algo verosímil. As partilhas em massa de conteúdos falsos lançam boatos e pânico. E o boato, como se sabe, é praticamente impossível de desfazer. Obrigaria a corrigir cada uma das partilhas, que seria o mesmo de apanhar um monte de penas lançadas ao vento.


Neste cenário de incerteza, parece cada vez mais óbvio que a maioria das pessoas prefere os cenários de pânico, a partilha de desinformação e a disseminação de informação falsa que causa danos à população. Não conscientemente, naturalmente. Num ecossistema mediático híbrido em que as tecnologias sociais são automatizadas, há algoritmos que manipulam o relacionamento entre pessoas, objetos digitais e ideologias. A sociedade dos ecrãs é hoje uma espécie de vida emocional que é mediatizada pelas plataformas digitais, com a fronteira entre a ficção e a não ficção cada vez mais ténue.


"No entanto, a dificuldade em compreender o que são media profissionais e o que são meios de comunicação falsos continua a evidenciar-se."

Os media profissionais têm obrigação de informar factualmente o público. Infelizmente, nem todos os meios de comunicação social estão a fazer bom jornalismo. O jornalismo tem de informar e não prever, alarmar, informar meias verdades ou ser pé de altifalante de desinformação. O “vírus da China”, a exposição do primeiro português infetado, as antecipações de medidas que se revelam falsas, a previsão de novos casos que causa alarmismo, o jornalismo politizado e pouco informativo, a repetição das informações até à exaustão, e a procura do jornalismo “justiceiro” que vai ensinar a população e vingá-la dos políticos são só algumas das coisas que me têm feito desligar a televisão e não abrir os sites da maior parte dos meios de comunicação. O mesmo acontece com a opinião publicada nos meios de comunicação.


Há dois dias, escrevia um conhecido constitucionalista num jornal da nossa praça que não havia pânico num estado de emergência, considerando que a comunicação social e as redes sociais deviam divulgar ativamente os acontecimentos ao público. E perante isto, as redes sociais passaram a ser uma entidade que ninguém sabe quem é, mas será idónea. A comunicação social, como se fosse uma só, parece ser o garante de informação fidedigna. Ora, o acesso à informação nas redes sociais não é sinónimo de jornalismo. O que é evidente é que as informações oficiais são aquelas que devem informar a população da situação num momento de estado de emergência. Às redes sociais não se pode exigir nada, muito menos que divulguem de forma ativa os pormenores do que acontece neste estado de emergência em que nos encontramos. Afirmar isto é promover a desinformação. O estado de pânico já é óbvio nas redes sociais, que não são uma entidade única. Têm milhões de utilizadores, cada um com a sua timeline.


É por tudo isto que temos de fazer mais e melhor nas escolas. Em todos os níveis de ensino. A literacia mediática é uma urgência.

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