O que está por vir

Crónica e Fotografias por Joana Alves


Parece que os media só relatam ou dão mais importância aos focos do vírus, a forma como as pessoas vivem a sua vida numa situação de quarentena e de pandemia, esquecendo-se assim das cidades interiores, ou vilas. Compreendo que queiram relatar locais de interesse por parte do público, mas também compreendo que devemos ver o outro lado da perspetiva.


É exatamente a razão pela qual escrevo este texto. Sendo uma residente de uma cidade do interior, mais especificamente da cidade de Chaves, venho dar uma perspetiva de como é viver fora de um dos focos de concentração do vírus.

Chaves em si é uma cidade relativamente calma, sem muita confusão, havendo mais movimento durante o verão devido aos turistas, mas com a situação toda de quarentena, Chaves parece literalmente uma cidade de fantasmas. Ruas vazias, comércios fechados, as caras familiares que víamos diariamente, estão agora presas em casa para a segurança do próximo. Digamos que há a vantagem de maior parte das pessoas viverem nos subúrbios, ou seja, costumam ter caminhos vazios por onde podem passear despreocupados, têm um terraço ou quintal que lhes permite fazer atividades ao ar livre, mas, de qualquer forma, uma estranheza apodera-se de nós, um sentimento de vazio, sentir que algo falta, e suponho que seja devido a nos tivemos de habituar a um novo modo de viver em apenas dias. Estar confinado à nossa casa, trabalhando à distância passando o nosso tempo com os nossos familiares ou sozinhos.


Posso dizer que o que mais mudou foram as nossas rotinas, os nossos hábitos, os nossos hobbies. Para quem estava habituada a ter aulas, andar de um lado para o outro, ver amigos, ir tomar café, jantar fora, ir sair, beber, divertir-se, fazer jantares que consistiam em massa com atum ou salsichas, mudar para um modo de quarentena foi um grande choque. Deixar de lado, por tempo indefinido, um estilo de vida rápido, cheio de adrenalina e confusão, para, agora, vivermos num ambiente de cuidado, segurança e medo, é algo que nenhum de nós queria. Podemos pensar que este confinamento não afetou assim tanto a nossa mente, mas permitam-me discordar. Falando de uma perspetiva pessoal, a minha criatividade diminuiu imenso, tal como a minha motivação, força de vontade, felicidade, e por aí em diante. A nossa saúde mental foi extremamente afetada por esta situação, e é rara a atenção que o tópico saúde mental recebe no dia-a-dia, tendo diminuído ainda mais, já que os media explodiram com notícias sobre o Covid-19.



Vejo constantemente a ser mencionado nas notícias a tentativa ou o início do regresso à normalidade, e surpreende-me as pessoas que realmente acreditam que as nossas vidas irão voltar ao normal. Não estou a tentar acabar com as esperanças das pessoas, muito pelo contrário, estou a tentar fazê-las perceber que o nosso normal antes da quarentena já não é uma opção, e não irá ser uma opção durante muito tempo, pois muito mudou e temos que nos adaptar a tal mudança.


Não vamos ver o mundo da mesma maneira, pois essa perspetiva mudou imenso. Por outras palavras, dois sentimentos que floresceram ao longo destes dois meses foi a gratidão e o valor. A gratidão de todos os momentos que passamos, de todas as festas que tivemos com amigos, todas as memórias, todas as pessoas que temos na nossa vida, termos um frigorífico cheio, um teto sob as nossas cabeças, e saúde. O valor que tínhamos sobre esses aspetos da nossa vida, aumentou extraordinariamente. Antes disto tudo pensávamos que era “só uma festa” ou “só mais um jantar”, mas agora passou a ser “aquela festa” ou “aquele jantar”, onde foram criadas memórias, onde houve risos e brincadeiras.


Momentos como estes e outros que, ao pensar neles, um sorriso aparece no nosso rosto, é o que nos dá esperança de que tudo irá ficar bem. Apesar de poder demorar, iremos criar muitos mais momentos e memórias que nos trarão um sentimento de nostalgia quando pensarmos neles.

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