O nu feminino pela lente de Ricardo Esteves

Atualizado: 6 de Set de 2020

"É mesmo uma questão de despir as pessoas não só da roupa, mas de preconceito”

Parece simples, mas não é. Ricardo Esteves é um rapaz de muitos ofícios, mas por onde podemos começar? Desde a fotografia, que tem sido a sua maior companhia nos últimos tempos, até à literatura, são muitos os talentos deste jovem de 26 anos.


A sua entrada no mundo digital aconteceu em 2011, quando decidiu começar a gravar vídeos humorísticos para o Youtube, inspirados na produção fictícia “Os Incorrigíveis”, conduzida por Bruno Nogueira, Herman José, Zé Diogo Quintela e Ricardo Araújo Pereira.


Mais tarde, este conteúdo tornou-se “muito enfadonho e repetitivo” porque o obrigava a escrever os guiões que, posteriormente, tinha de repetir. Descobriu que “também podia gravar vídeos enquanto jogava”, então optou por tentar aliar o humor aos videojogos.


Em 2012, decidiu que era altura para criar um canal oficial no Youtube, onde conseguiu juntar cerca de 40 mil seguidores. “Conheci muita gente”, confessa Ricardo que, entusiasmado com as inúmeras experiências que vivenciou, sempre mostrou um grande gosto por explorar diferentes áreas.


Enfeitiçou-se pelo piano aos 11 anos, mas a guitarra acabou por conquistá-lo e, hoje em dia, dá-lhe mais importância. Para Ricardo, é fundamental “conhecer e viver a vida”, e é este lema que direciona a sua curiosidade para explorar áreas como a fotografia, o design gráfico, a literatura e a poesia.


Foram surgindo vários projetos, fruto dos “estudos pessoais” que vai fazendo no tempo livre. Tudo o que faça Ricardo pensar “eu não quero morrer sem fazer isto”, é uma experiência pela qual quer passar e na qual pretende investir.


Há cerca de ano e meio, decidiu explorar mais a área da fotografia e, hoje, isso ocupa-lhe a maior parte do tempo. Foi ao ver as inseguranças, comuns a muitas jovens raparigas, espelhadas na sua prima, que Ricardo decidiu começar a fotografar. Fê-lo na esperança de a conseguir fazer entender que “tudo passa por uma questão de ângulos, poses e enquadramentos”. O resultado foi positivo e, a partir daí, tomou-lhe o gosto. Os “alvos” seguintes foram pessoas conhecidas, que fotografava “só porque sim”, confessa. De um simples ato de preocupação, começou um percurso feliz.


Rapidamente surgiram pessoas interessadas em ser fotografadas pela lente de Ricardo, o que o levou a criar uma página profissional no Instagram, para poder partilhar todo esse conteúdo. Hoje, conta com mais de 8500 seguidores. De sessão para sessão, começou a investigar diferentes formas de fotografar, inspirando-se em alguns fotógrafos de renome.


Ricardo Esteves


A terminar a licenciatura em Comunicação e Design Multimédia, na Escola Superior de Educação de Coimbra (ESEC), Ricardo admite que nunca tirou nenhum curso de fotografia e o que aprendeu até hoje “foi com vídeos no Youtube e com a experiência, principalmente”. O segredo é “experimentar, errar e ver no que dá”, sintetiza. Quando não resulta, é importante perceber porque é que não resultou e encontrar alternativas.


Não descura, no entanto, as vantagens de tirar um curso superior na área, porque acredita que “haveria um aprofundamento maior”. Além de existir muito para aprender, a aquisição de conhecimento também “seria mais rápida”, sublinha. Tendo por base a observação, a aprendizagem autodidata é possível em qualquer área. “É uma questão de as pessoas quererem e experimentarem”, reforça.


“SE HÁ NECESSIDADE DE TIRAR UM CURSO SUPERIOR PARA ENVEREDAR NO MUNDO DA FOTOGRAFIA? EU ACHO QUE CONSEGUI PROVAR QUE NÃO.” - RICARDO ESTEVES


Com consistência e persistência os resultados aparecem. Habituado a manter um certo patamar de qualidade nas suas fotografias, Ricardo não descarta a evolução e procura alcançar sempre melhores resultados. Há fotos únicas e diferentes. A determinada altura, decidiu começar a explorar mais detalhadamente a fotografia de interiores. Assim como o exterior, ambos os cenários têm as suas vantagens e desvantagens, dependendo do tipo de trabalho. Ricardo não consegue escolher um dos dois formatos, mas confessa que no exterior “existem muitas mais opções”.


Relativamente às sessões fotográficas que faz, estas podem acontecer de duas formas: ou as pessoas abordam Ricardo, ou o próprio contacta uma pessoa com a qual gostava de fazer uma produção. Dado o primeiro passo há, posteriormente, uma discussão sobre preços, conceitos, cenários e vestuário. Depois da partilha de algumas opiniões, há ainda uma preparação mais técnica: “Preparo as câmaras, as baterias, os cartões estão todos vazios para garantir que tenho espaço, carrego a coluna portátil para ter música ambiente e levo água”, diz-nos o Coimbrense.


“NÃO GOSTO DE FOTOGRAFIAS MUITO CARREGADAS. GOSTO DE COISAS SIMPLES. TENTO FAZER O MELHOR, COM O MENOS POSSÍVEL." - RICARDO ESTEVES


Ricardo tem de estar preparado para lidar com várias situações, nomeadamente arranjar estratégias para deixar as pessoas descontraídas, independentemente da personalidade de cada uma. Se, por um lado, existem pessoas muito confiantes de si e do seu corpo, há também quem tenha a sua confiança destruída. Embora o resultado das sessões tenha sido, até hoje, sempre positivo, o fotógrafo confessa que “o facto destas sessões resultarem tão bem, acaba por criar uma pressão maior nas pessoas que já têm essas inseguranças, porque não se acham capazes”.


Diz-se que havendo uma empatia entre o fotógrafo e a/o modelo, é meio caminho andado para as coisas correrem bem. Para garantir um ambiente agradável, em que as pessoas se sintam quase em casa, Ricardo diz que “a forma mais eficaz é sempre o máximo de transparência e respeito”, nomeadamente, quando as fotografias requerem algum tipo de nudez.


A nudez tem vários calibres: pode ser intimista, sensual, explícita, pornográfica ou demasiado ordinária. Um corpo nu tem tanto de fascinante como de desconfortável. Embora o nu em fotografia comece a ser muito explorado, ainda continuam a existir algumas reservas. É por este motivo que Ricardo quer fazer parte do caminho para erradicar os estereótipos associados a este tabu. Se, por um lado, “existem fotografias com nudez que são feias porque são demasiado óbvias e gratuitas”; por outro existem outras que são o oposto e “conseguem refletir precisamente a sensualidade do corpo feminino”, diz o fotógrafo.


O objetivo de Ricardo é também “mostrar que não é por as pessoas estarem nuas que a foto fica feia, brejeira ou ordinária” porque, efetivamente, “há fotos que só resultam neste registo”, explica. “É mesmo uma questão de despir as pessoas não só da roupa, mas de preconceitos”.



Uma fotografia de uma mulher despida não é sinónimo de vulgaridade. “Como é que consigo tornar a nudez o mais sensual possível, sem ser gratuito e pornográfico?” – é com este pensamento que Ricardo pretende mexer com a consciência das pessoas e combater as barreiras impostas pela sociedade.


Este cenário é uma coisa natural para o jovem de 26 anos porque sabe que nestas circunstâncias só há espaço para um “trabalho com profissionalismo”. Da mesma forma que uma mulher, por exemplo, se despe para ir à esteticista ou ao ginecologista, fá-lo também para registar a arte do corpo feminino. É crucial que haja “espaço para a intimidade e privacidade das pessoas”, diz Ricardo, ao mesmo tempo que reflete sobre “a forma fantástica como se criam laços de amizade de forma honesta”, fruto do seu respeito pelas pessoas com quem trabalha.


“POR DETRÁS DA CÂMARA EXISTE UMA PESSOA, TANTO PARA O LADO DE CÁ, COMO PARA O LADO DE LÁ.” - RICARDO ESTEVES


Associada a esta abordagem fotográfica, a nudez acaba também por fazer parte de um processo de aceitação do corpo feminino. Este registo consegue, em determinados casos, elevar a autoestima e auto-confiança a quem se sente mais vulnerável com o seu corpo.


Elogiar as fotografias durante a sessão, com sinceridade, “é essencial para que as pessoas ganhem algum à vontade” e, para Ricardo, a partir daí, “as fotos fluem mais naturalmente e nota-se um reforço da confiança”. Estrias, celulite, mais gordura aqui ou ali é uma realidade conjunta de todas as mulheres e é por este motivo que Ricardo faz questão de publicar este tipo de fotografias, na esperança de que “eventualmente nalgum lado, uma pessoa que tenha estas marcas olhe para elas de forma diferente e positiva”.



Existem várias formas de elogiar a prestação da pessoa a ser fotografada, mas deve haver um cuidado redobrado porque “fazer-se um elogio é aceitável até um determinado ponto”. Para o jovem, “dizer que a foto está incrível ou elogiar o empenho da pessoa em questão, não tem mal nenhum desde que não seja dito com uma abordagem diferente”, explica.


Embora nem todos estes trabalhos sejam remunerados, o empenho tem de chegar dos dois lados. Cada um dá um pouco de si e dos seus skills e “é necessário que haja uma consideração mútua” porque “havendo dedicação, motivação e sorte – com as condições climatéricas – as fotos resultam bem, as pessoas ganham confiança e ainda descobrem que, afinal, até têm jeito para a coisa”, reforça Ricardo.


É por este motivo que, no diálogo sobre a marcação de uma sessão, Ricardo faz questão de explicar que quem define os limites são os/as clientes e, se assim o pretenderem, podem levar uma companhia. Além disso, estão sempre seguras de que nenhuma fotografia será publicada sem o seu consentimento.


Hoje em dia a evolução na qualidade das fotografias é bem visível no seu perfil do Instagram. Além de se ter tornado mais seletivo no conteúdo que publica, Ricardo refere também que, atualmente, explora muito mais as edições, presando sempre a simplicidade e naturalidade. A pós-produção é uma etapa muito subjetiva, porque “vai muito em linha do estilo de cada um”, começa por dizer. “O meu estilo sempre foi muito minimalista porque gosto de coisas simples e evito ao máximo fazer edições muito carregadas”, esclarece Ricardo, certo de que “é importante saber quais os limites que são definidos pelos gostos pessoais de cada um”.



“HÁ CERTAS EDIÇÕES QUE TANTO PODEM FAZER A FOTO, COMO DESTRUÍ-LA.” - RICARDO ESTEVES


Recentemente, lançou a sua primeira linha de presets e “o feedback foi bastante positivo”, confessa. Esta criação foi feita com base em edições do estilo analog porque, apesar de usar fotografia digital, é um grande amante deste estilo. “Andei a explorar e a estudar este tipo de edição porque se era para lançar alguma coisa, não iam ser apenas uns ajustes minuciosos”, esclarece Ricardo, reforçando a ideia de que “o preset não faz milagres porque é sempre preciso fazer alguns ajustes”.


No que diz respeito a projetos futuros, Ricardo confessa que, quando começou a explorar este ramo, “o objetivo não era fazer grande carreira”. No entanto, o gosto pela fotografia, assim como o resultado das suas produções trocaram-lhe as voltas. Hoje já faz uma retrospetiva positiva do seu trabalho até ao momento e vê “uma oportunidade no emprego e no negócio”. Como referência, tem alguns fotógrafos de swimwear, e muitos já têm marcas próprias. “Relativamente a planos futuros, gostava de fazer uma coisa desse género”, diz-nos Ricardo, que pretende ainda usufruir de “1 ou 2 anos de experiência”, para reunir mais algumas fotos para o seu portefólio. Até lá, “quero continuar a explorar, viajar e aprender”, sempre consciente de que, aos poucos, o objetivo é também conseguir algum rendimento financeiro.


“A PARTIR DO MOMENTO EM QUE DEIXAMOS DE TER GOSTO NO QUE FAZEMOS, MAIS VALE MUDAR DE RAMO O QUANTO ANTES.”– RICARDO ESTEVES


Motivado por todas as conquistas conseguidas e pela sua experiência até ao momento, Ricardo diz que, para alguém que queria explorar o mundo da fotografia, o segredo é explorar, experimentar e errar. De nada serve ir a workshops e fazer formações, se depois não há vontade de pegar na máquina, arriscar e ver no que dá. “A ideia é errares. Quantas mais fotos más tirares, maior a probabilidade de conseguires alguma fantástica”, sublinha.


Os outros têm uma importância muito grande neste percurso de aprendizagem. Observá- los ao máximo é meio caminho andando para tirar algum conhecimento e beneficiar dele. É com a consciência da complexidade deste ramo que Ricardo Esteves olha para o seu futuro motivado para fazer mais e melhor. Afinal, “o gosto por fazer aquilo que mais nos dá prazer não deve ser destruído pelas ideologias e os limites impostos pela sociedade”, finaliza.

As fotografias apresentadas neste artigo são da autoria de Ricardo Esteves.

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