O novo mundo do desporto online

Atualizado: 9 de Jul de 2020

Entrevista por Afonso Loureiro, Mafalda Pereira e Paulo Cardoso


Durante o confinamento, os ginásios fecharam portas. Muitas pessoas levaram a atividade física para a rua, com os clubes de fitness encerrados. A partir do dia 13 de março, uma sexta-feira, ainda antes do estado de emergência, foram vários os ginásios do país a decidir encerrar as suas atividades. 


O FFitness Health Club, em Viseu, e o Pulse - Movement Factory, em Pombal, são dois dos ginásios que se anteciparam a proteger a saúde dos clientes. Sandra Nascimento, gestora do clube fitness de Viseu, revela que a empresa já estava a “trabalhar na plataforma online” antevendo o fechar das instalações desportivas. A decisão da equipa foi desenvolver um serviço que permitisse “acompanhar os clientes a partir de casa e a decisão de fechar portas foi tomada com muito medo”. Na cidade de Pombal, as portas do ginásio fecharam “sem qualquer obrigação, por uma questão de saúde pública”. Com a entrada do vírus em Portugal, muitos consumidores, segundo João Cardoso, diretor técnico do Pulse - Movement Factory, deixaram de utilizar o ginásio.


Fonte: Trendy

A decisão de fechar os estabelecimentos não foi tomada de ânimo leve. João Cardoso confessa que “as opiniões da equipa eram muito diferentes, mas a decisão final foi suspender as atividades. Não foi uma decisão fácil, tivemos receio por estar a fechar antes de ser declarado Estado de Emergência. Mas assumimos o risco e assim que foi tomada a decisão pelo Presidente da República, ouvido o Governo e com a autorização da Assembleia da República, apercebemo-nos de que fizemos o melhor.” Com a implementação de medidas de confinamento, Sónia refere que impedir grupos de pessoas de praticarem exercício físico “não foi fácil para ninguém”. No entanto, assegura que o grupo FFitness conseguiu ter uma resposta muito rápida, uma vez que já trabalhavam com aplicações tecnológicas há muito tempo - nomeadamente, a aplicação oficial para marcação de aulas pelos clientes.


"As opiniões da equipa eram muito diferentes, mas a decisão final foi suspender as atividades. Não foi uma decisão fácil (...)"


Numa fase inicial, o objetivo do ginásio em Pombal foi criar um espaço online que reunisse os treinos e permitisse continuar com aulas de grupo. Por culpa da Covid-19, contactaram os seus sócios para “oferecer disponibilidade para ajudar ao nível da adaptação”. Para João Cardoso, as aulas à distância foram como “descobrir um mundo novo” e, no início, “tentou encontrar-se a melhor solução recorrendo à lógica da tentativa e erro”.  No ginásio de Viseu, o que chama mais à atenção é a utilização da app por mais de 90% dos sócios. “Nós temos uma aplicação onde os sócios estão em contacto constante com os colaboradores e que, de forma muito rápida, permite enviar-lhes email ou notificação e falar com eles”, indica Sandra Nascimento. Neste momento, sabe que 60% dos sócios utilizam as ferramentas online. A Covid-19 não foi desculpa para deixarem de se manter ativos. 


A AGAP (Associação Ginásios e Academias de Portugal) assumiu, a nível nacional, prejuízos na ordem dos 70% para os ginásios - “até lançaram (acho um bocadinho drástico) que 70% dos ginásios poderiam não voltar a abrir portas no final desta crise”, refere o diretor técnico do ginásio de Pombal. Efetivamente, a faturação no Pulse - Movement Factory baixou mais de 50% e reduzir preços passou a ser uma das estratégias adotadas pelo ginásio, de forma a que os clientes conseguissem ter acesso ao serviço online. João Cardoso refere que a faturação baixou mais ou menos 90% e em abril, apesar de subiu ligeiramente, não passou dos 20%. Ter um treino acompanhado e personalizado através do ecrã parecia, para muitos, algo impossível, mas, “felizmente, isso foi-se alterando e o crescimento a nível de clientes e faturação de personal trainers foi aumentando. Creio que isso também aconteceu porque as pessoas acreditaram no nosso trabalho e deram-nos esse voto de confiança”.


"Todos vão querer entrar num ginásio que cheira A álcool etílico"


No FFitness Health Club, Sandra Nascimento adianta que, efetivamente, alguns clientes cancelaram o serviço, mas, em relação à taxa de desistência - não foi superior aquilo que já costumava ser mensalmente. Juntamente com a AGAP, este fitness club tem “batalhado muito por haver secções da nossa sociedade em stand by, sem saberem quando é a data de abertura ou quais são as medidas que serão efetuadas”. De referir que, são milhares de famílias que dependem do fitness - “temos cerca de 1700 ginásios e health clubs em Portugal, sendo mais de 12 mil, salvo erro, empregos diretos que também dependem dele”. Sandra diz que a situação é muito complicada e, caso todo o setor fechasse, compara esta situação à falta de emprego em toda a zona urbana de Viseu. “É assustador.”


Se num ginásio a higiene é fundamental, a partir de agora será mais do que nunca  - “todos vão querer entrar num ginásio que cheira a álcool etílico”, afirma João Cardoso. Distanciamento social, pré-marcação do espaço ou aulas no exterior do ginásio são as alternativas que se encontram em cima da mesa para o regresso. “Temos uma varanda muito grande em redor do ginásio e vamos tentar levar as aulas para o exterior do ginásio”, revela o diretor técnico. Sobre as medidas de segurança e higiene, o FFitness já tinha, antes da pandemia, limitação de aulas, álcool-gel nos ginásios, já fazíamos limpeza de hora a hora e desinfeção de todos os espaços. Desta forma, Sandra Nascimento assegura que o ginásio está pronto e já tinha uma data de medidas de contingência, aplicadas.

No ginásio de Pombal, o fitness emprega aproximadamente 25 pessoas (contando com instrutores, rececionistas e empregadas de limpeza). João Cardoso lamenta que ainda haja um mito em volta do mercado fitness - “acha-se que o no ginásio se trabalha com muita gente em part-time, mas neste momento o mercado evoluiu e a maioria dos instrutores têm o horário completo e esta é a sua única fonte rendimento”.  Em Viseu todas as pessoas trabalharam, durante o Estado de Emergência, a tempo inteiro, em teletrabalho. Uma equipa de filmagem, com 16 instrutores que faz as filmagens para a plataforma digital do FFitness e uma equipa de quase 30 personal trainers. Sempre a trabalhar “diariamente, a contactar os sócios e a acompanhá-los, em contexto de treino personalizado, de reavaliação física ou de replaneamento de treino”, confessa Sónia Nascimento. 


Agora que os ginásios já voltaram a abrir portas, o diretor técnico do Pulse - Movement Factory refere que seria “interessante que o Estado se preocupasse um pouco mais com a indústria do fitness, porque, na verdade, o futebol profissional manteve-se e teve autorização para retomar atividades e os ginásios, que vivem do desporto de igual forma, não a receberam tão prontamente”. 

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