• Jéssica Gonçalves

O homem do teatro que não queria a televisão

Pompeu José, 63 anos, cabelo grisalho, mas com um espírito jovem. Nasceu em Tábua, distrito de Viseu, mas os seus pais migraram para Setúbal. Iniciou a sua carreira no teatro há quatro décadas e foi nesta arte que encontrou a sua vocação.


Apesar de viver, atualmente, em Tondela, o ator iniciou o seu percurso no Teatro Animação de Setúbal, passou para “O Bando” de Lisboa e foi através deste que conheceu a Associação Cultural e Recreativa de Tondela (ACERT), onde acabou por vir parar. “Vim cá à estreia do espetáculo "Amar Mulheres" do Trigo Limpo. Conheci o grupo, comecei a conversar, gostei muito das pessoas. E, disse: um dia, mais cedo ou mais tarde, eu venho aqui parar”, contou Pompeu.


O seu percurso ficou marcado por algumas peças controversas e personagens arriscadas que construíram a pessoa que é hoje. A primeira vez que subiu ao palco, com a peça “A promessa de Bernardo Santareno”, não tinha bem a noção do que aquilo representava. “Era sobre os pescadores, e quando a PIDE queria censurar o texto, o padre da aldeia não deixou e alegou que era só sobre pescadores. E, na realidade, não sabíamos bem o que isso significava”, explicou o ator. Para além do marco que teve na democracia do país, o 25 de abril de 1974, na vida de Pompeu, foi que o fez optar por viver do teatro.


Em Setúbal, quando fazia parte do grupo do Centro Cultural, que trabalhava na descentralização, Pompeu era fundamentalista contra a televisão. “Toda a gente começava ali, Nuno Melo, Manuela Couto, Fernando Luís, mas depois saltavam no trampolim do teatro para a televisão. E eu não concordava com isso, não podia ser assim. Portanto, eu não vou para a televisão. Ponto final”, afirmou, entre risos, Pompeu, pois mais tarde isto não se revelou assim tão linear.


Já casado em Tondela com Carla e a trabalhar com o grupo de teatro da ACERT, surgiu a oportunidade de fazer um casting para uma série televisiva, uma aposta inovadora na televisão. Patrícia Vasconcelos liga-lhe e diz: “Pompeu, digo-te, o papel é para ti”, mas o ator continuava na sua e dizia que não queria que lhe lixassem a cabeça. Convencido que não daria em nada, Pompeu falou com os seus colegas do grupo tondelense e lá foi até à capital fazer o casting. Estudou o texto, fez a prova e foi selecionado. “Tive sorte”, afirma o ator encolhendo os ombros. Do seu casamento, nasceu Afonso Cortez, filho de Pompeu e Carla. “O meu pai é uma pessoa muito pacífica, calma e simpática, às vezes, até demais”, descreve.


“Apesar de a televisão ser um negócio, ao contrário do teatro, fiquei ligado, porque sinto que posso continuar a trabalhar à minha maneira”, disse Pompeu. A sua passagem pela televisão trouxe o reconhecimento ao Trigo Limpo, mas as pessoas de Tondela nunca foram atrás das luzes da ribalta e sempre o continuaram a tratar como o “Pompeu do Trigo Limpo” que vai à televisão.


O que mais marcou o ator no seu percurso pelo pequeno ecrã foi a primeira série em que participou – “Os Jornalistas” da SIC -, pois mostrou-lhe que também conseguia funcionar como ator em televisão e não só no teatro. Com a produção da novela “Queridas Feras”, Pompeu deu apoio a Fernanda Serrano que, na novela, sofria de cancro, e como o ator tinha vivido de perto esta doença com a sua mulher, pôde ajudar com o conhecimento que possuía. “Vivi com muita proximidade um problema e auxiliei em relação ao assunto.


Quando a história da vida se cruza com a ficção tem a sua graça, e ajudou-me a resolver uma série de problemas que tinha comigo”, explica Pompeu. Já fora da novela, o cancro ataca Fernanda Serrano e Pompeu revela-se um grande apoio para a atriz. “A Carla já tinha falecido e isto mói. Estar a trabalhar em cima destas coisas, é ter que desconstruir isto tudo”, confessa o ator, que mantém sempre o sorriso, apesar do assunto delicado que veio à baila. Refletindo uma das características enumeradas pelo seu filho, “tem a capacidade de lidar com várias situações, por muito brutas que sejam para ele”.


“As personagens populares são as que mais me agradam”, exprime Pompeu, entre risos. Para a novela “Jogo Duplo”, encarnou a personagem ao sentar-se num café em Tondela a “beber e mandar bocas”, que era o espelho da personagem que representava na produção da TVI. É por aí que entra a televisão, quando se apercebeu que havia uma zona em que era possível funcionar como ator e não vendedor, como inicialmente Pompeu julgava que assim seria.


Emocionalmente forte e firme, durante a época mais cinzenta da sua vida, nunca chorou. “Não me ia abaixo mas, quando fiz a novela ‘Laços de Sangue’, surge, mais uma vez, o cancro. Mas, decidi que ia ser um marido desgraçado que ainda estava mais triste que a mulher que tinha a doença”, explica Pompeu acrescentando que passou dias e dias a chorar. “A grande vivência do teatro ou de uma novela, quando se cria uma personagem, não é sobre o que já se viveu. Eu tinha pena da Margarida Carpinteiro e da mulher que ela representava, mas ajudou-me a limpar muito. Se calhar aquilo que não tinha chorado antes, saiu nessa altura”, revelou o ator, relembrando a época de luta contra o cancro da sua mulher.


Trabalhador, amigo e próximo do filho, que o assume como um dos seus melhores amigos e apaixonado pelo local onde vive, Pompeu confessa que a sua vida é o teatro. “Sinto que não há nada por fazer na minha vida. Todos os dias, antes de me deitar, tenho que sorrir e só consigo adormecer, se estiver bem”, desabafa o ator. “Para mim, não é xixi, cama. É sorriso, cama”.

© Rui Coimbra - Facebook ACERT


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