O fado que canta Coimbra

Atualizado: 28 de Mar de 2020

Entrevista por Catarina Magalhães e Patrícia Silva



Fotografia: Patrícia Silva

Coimbra é uma cidade de tradições, e foi a partir dessa premissa que surgiu, em 1980, a Secção de Fado da Associação Académica de Coimbra. Com 40 anos de existência, teve origem no movimento “Pró-restauração e reorganização da praxe”, onde os estudantes procuravam recuperar as tradições da cidade, inclusive, o uso da capa e batinas e as festas académicas, após o Luto Académico de 1969.


A Secção de Fado conta atualmente com cerca de 70 membros, que integram os diversos grupos dentro desta Secção: O Grupo de Fado, a Orquestra Típica e Rancho, a Orxestra Pitagórica, O Grupo de Cordas, A Estudantina e a Estudantina Feminina.



Grupo de Fado. (Fonte: Facebook)



Orquestra Típica e Rancho da SF/ AAC (Fonte: Facebook)



Orxestra Pitagórica (Fonte: Facebook)

Grupo de Cordas da SF/ AAC (Fonte: Facebook)

A Estudantina Feminina de Coimbra da SF/ AAC (Fonte: Facebook)

A Estudantina Universitária de Coimbra (Fonte: Facebook)

Emanuel Nogueira, presidente da Secção de Fado da AAC , abordou diversos temas subjacentes à Canção de Coimbra.


Sentes que há uma curiosidade por parte dos estudantes pela Secção, ou esta cinge-se só aos momentos da Serenata da Latada e da Queima das Fitas?


Se calhar, há muitas atividades ligadas à Secção de Fado que as pessoas não associam a esta Secção. As pessoas veem a Estudantina ou a Pitagórica atuar, ou outro grupo, e não se lembram de dizer “Quero ir para a Secção de Fado, porque quero ir para a Estudantina”.


Quase toda a gente sabe que a Serenata é realizada pela Secção de Fado, por causa do que aconteceu em 2018, quando fizemos ameaça de boicote à Queima das Fitas. Toda a gente ficou a saber que era organizada pela secção. Até já ouvi uma versão que dizia que na Serenata tocavam os melhores de cada tuna, o que é completamente ridículo e não faz sentido nenhum.


Eu julgo que existe alguma curiosidade. Atualmente, temos muitos estudantes, cerca de 25 mil estudantes. É uma comunidade académica enorme e acho que, como há muita coisa a acontecer, acaba tudo por ser um bocado diluído na dimensão de coisas que acontecem. Mas, ainda assim, acho que existe curiosidade em relação à Secção de Fado, como em relação, no geral, à AAC.. Acho que existem alguns fatores que se apresentam como um obstáculo para os estudantes entrarem numa Secção como a de Fado.


O que achas que distingue o fado de Coimbra dos outros fados?


Praticamente tudo, porque havia uma teoria que esteve presente muito tempo - ainda há muita gente que acredita - que é a de que o fado de Coimbra veio do fado de Lisboa. Isso não é verdadeiro. Pode ter havido uma pequena influência do fado de Lisboa no de Coimbra, no século XIX, mas é uma coisa muito residual. Apesar de nós termos em comum o nome fado, e, apesar de termos instrumentos muito parecidos, que ainda assim são diferentes, uma guitarra de Coimbra é diferente de uma guitarra de Lisboa, não só na anatomia, mas a própria forma de tocar é muito diferente. O fado de Coimbra é um género musical próprio, com as suas próprias raízes, que nada tem a ver com o fado lisboeta.


Há muitas coisas que a distinguem. Primeiro, a vivência tradicional é muito diferente. Em Lisboa, inicialmente, o fado era tocado nas Casas de Fado, que eram casas de prostituição. Aliás, era muito mal visto pela alta classe do país. Até há uma referência nos Maias: “isto é coisa de fadistas” – um termo pejorativo. Portanto, o ambiente natural do fado de Lisboa é nas ruas tradicionais de Alfama, Mouraria, onde estavam os marinheiros… era uma coisa mais popular, e até popularucha, sem querer ser desrespeitoso neste sentido.


O fado de Coimbra tem uma raiz muito própria. A raiz da música popular de Coimbra, que é uma música que merece ser estudada, porque sendo música popular, tem uma complexidade musical muito grande. Depois, tem a influência de música de várias regiões do país, porque os estudantes também o eram. Traziam a sua música para cá e havia uma espécie de amálgama entre os vários géneros musicais. E distingue-se a nível lírico, porque a sua poesia não é tão livre, como o fado de Lisboa. É mais seletiva. Tem quadras populares que são muito diferentes, como também tem poemas mais eruditos, exatamente pela vertente académica.


A própria vivência citadina é muito diferente, porque é aquela que temos enquanto estudantes universitários. Muitas vezes, os temas estão presos ao que é ser estudante de Coimbra: a questão da saudade, dos amores… A forma de tocar também é diferente, pois o fado coimbrã é muito mais lento.


Ainda que possam comungar em pequenas coisas, são géneros muito diferentes. Acho que um dos maiores erros é o fado de Coimbra querer ir à boleia do de Lisboa, porque aí vamos ser como uns subalternos. Temos tanta capacidade para ser um género musical reconhecido nacional e internacionalmente.


Achas que já têm uma projeção além-fronteiras?


No passado, o fado de Coimbra teve uma boa projeção além-fronteiras. Aliás, muitos discos de fado foram gravados no estrangeiro, nos anos 50, anos 60… Atualmente, existe alguma projeção, mas é uma coisa muito residual ainda. A instituição que mais divulga o fado de Coimbra no estrangeiro é o Fado ao Centro, mas, com todo o respeito, é sempre numa perspetiva comercial.


Considero que o fado de Coimbra precisa de dar um salto, como o fado de Lisboa deu. O fado lisboeta, num dado momento, conseguiu ter um bom investimento, para que houvesse músicos que se dedicassem a tempo inteiro. Acho que é o que está a faltar no fado de Coimbra. Não estou a dizer que temos de passar já para uma profissionalização total do fado de Coimbra, mas acho que é preciso uma aposta, para que se comecem a produzir bons temas, bons discos. A fim de que o nosso fado se possa modernizar, mas não perdendo a sua essência. Adaptar-se àquilo que é a realidade atual e que possa estar nas televisões, em grandes concertos, possa fazer bons concertos no estrangeiro e que possa ser conhecido, bem como ser uma marca do país, como é o fado de Lisboa.

Fotografia: Patrícia Silva

Emanuel Nogueira aponta como falha a falta de produção académica sobre a Canção de Coimbra. “A sorte de sermos a única universidade com um género musical próprio” contrasta com a falta de apoios, por parte da Reitoria e da Câmara Municipal. Aliás, “o apoio ao fado de Coimbra não pode ser reduzido à comercialização para os turistas”, pelo que uma participação científica valorizaria esta tradição, no plano nacional e internacional. Por outro lado, a oferta da AAC, no plano cultural e desportivo, também sofre com a falta de interesse por parte dos estudantes.

Sentes que as casas de fado prejudicam ou valorizam o fado de Coimbra?


Por um lado, o turismo e as casas de fado beneficiam-no, porque o tornam mais conhecido. Nós, enquanto estudantes, não temos capacidade de o tocar todos os dias para turistas. É impossível, nem é esse o objetivo. E é bom que haja espaço para os turistas ouvirem fado de Coimbra. Por princípio, tenho algumas reservas em relação às casas de fado, mas percebo o seu lugar no panorama do turismo.


Agora, também prejudicam, porque quando se faz uma comercialização rápida, “tocar para turista”, acaba por haver uma certa deturpação. O turista que vem a Coimbra, não sabe o que vem ouvir e é muito mais fácil os músicos desleixarem-se no momento da apresentação. Depois, o turismo faz com que se recorra mais facilmente aos clichês e se reduza o fado de Coimbra às serenatas, tentando criar uma ligação com o de Lisboa, tornando o nosso mais aprazível. Outro problema, geralmente, é o facto de não haver uma unidade musical no grupo, muitas vezes arranjados de diferentes grupos e tocam as mesmas 12 músicas de sempre. Sempre o mesmo repertório, nem ensaiado sequer. Leva a que fique viciado e que os músicos reduzam o fado de Coimbra a uma sessão de 12 temas para os visitantes. Deixa de haver uma profissionalização séria… As casas de fado, tendo o seu lugar, culminam numa má comercialização, podendo até haver possibilidade para uma boa. O que está a acontecer está a ser prejudicial para o nosso fado.

Fonte: Fado Hilário

Achas que o fado de Coimbra, na sua raiz original, pode vir a extinguir-se?


Enquanto a Secção de Fado existir, não. Ou seja, o nosso objetivo, enquanto Secção, é manter a matriz tradicional do fado de Coimbra. Quando digo matriz tradicional, não quer dizer que somos ultra-conservadores e que somos contra a inovação. Isso é completamente falso. Aliás, nós vamos agora gravar um disco do fado só com originais, pois continuamos a escrever originais todos os anos.


Quando dizemos que queremos preservar a matriz tradicional do Fado de Coimbra é, em especial, a ligação do fado da cidade à academia e à música popular de Coimbra. Costuma-se dizer que o fado de Coimbra é um género musical de duplo filão: Académico e Popular, porque efetivamente a sua raiz é popular, mas depois tem uma mão muito forte dos estudantes. Os estudantes acabaram por tornar este género musical, que inicialmente era comum à cidade, como uma coisa sua. Acabaram por desvinculá-lo: deixou de ter uma ligação tão direta à música popular da cidade e passou a ganhar uma certa autonomia na mão dos estudantes. O que nós procuramos preservar é esta vivência tradicional do fado de Coimbra, que é a vivência dos Estudantes da nossa academia. O que não quer dizer que não possa haver estudantes a tocar e a cantar - sempre houve, não tem mal nenhum.


Pode haver uma comercialização do fado de Coimbra, obviamente. A comercialização até é importante. No entanto, nunca se pode perder esta raiz do nosso fado, que faz o fado de Coimbra ser fado de Coimbra. Esta é a ligação à vivência tradicional da Universidade de Coimbra.

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