• Catarina Magalhães

O (des)controlo nas redes (nada) sociais

Atualizado: há um dia

“Em que estás a pensar?” ou “O que está acontecendo?” são duas das indagações que redes como o Facebook e o Twitter colocam aos seus utilizadores. Com base numa lógica que fomenta e solicita, narcisicamente, o ato contínuo de interação com quem detém um perfil nas redes sociais, estas plataformas abriram as cortinas do palco da liberdade de expressão.


O boom das redes sociais alimenta a nossa ignorância. Afinal, as tais redes já existiam na interação quotidiana entre os vários membros da comunidade. Uma comunidade que foi, deveras, potenciada pelas evoluções tecnológicas que, hoje, nos conectam uns aos outros, em qualquer parte do mundo. Uma “aldeia global”, nas palavras de McLuhan, que nos deve levar a refletir. Uma das explicações da rápida propagação da COVID-19 foi, afinal, este mundo globalizado e interconectado. Mas também é uma das vantagens para o inédito desenvolvimento da aclamada vacina.


No conforto de casa (regado, muitas vezes, com chávenas de chá ou café), muitos se sentam, refastelados, num scroll infinito nos seus computadores, tablets e telemóveis. Se, antes, folheavam romances de Eça, agora leem comentários inflamados nas redes sociais (ou escrevem). Além de insultos gratuitos, muitos denunciam um dos maiores vícios: criticar sem ler - desconhecendo o contexto ou o tema. No fundo, uma crítica pelo bel prazer de discorrer impropérios, sem pensar no visado/visada das palavras desmedidas.


Apesar das tentativas recentes de controlo do discurso de ódio, os mecanismos desenvolvidos pelas plataformas têm as suas limitações - também elas técnicas. Aliás, o controlo não deixa de suscitar questões, como a adversativa ‘mas’ na liberdade de expressão (que Mick Humme, jornalista britânico, considera que condiciona o estado puro da liberdade de expressão, no seu livro Direito a Ofender) ou acicatando o debate em torno do tema da censura.


Francisco Sarsfield Cabral, num artigo de opinião, em 2020, na Renascença, salienta que o discurso de ódio, não obstante seja um crime, torna-se mais difícil de controlar e até atribuir responsabilidades num ambiente em que impera o anonimato. Afinal de contas, muitos dos perfis são falsos ou constituem outro crime – a usurpação de identidade de outras pessoas. E não há instrumentos que controlem isso. A não ser, está claro, o bom senso. Mas que, como se pode depreender de alguns comentários, não impera por estes lados online.


A instantaneidade e a velocidade de processamento da informação limitam a capacidade de interpretação daquilo a que se está exposto na web. Além da nossa capacidade de concentração ser, cada vez mais, diminuta. As táticas de click bait de algumas páginas alimentam o facilitismo do discurso de ódio e insultuoso que prolifera nas redes. Um discurso fácil, descartável com argumentos informados e sustentados, mas cujo anonimato lança por cima de quem escreve uma nuvem de impunidade.


As redes, além do apanágio inicial à sua capacidade democrática, tornaram tudo mais público e, de certa forma, suscetível a críticas. Uma vírgula mal colocada, um vocábulo desfasado, uma pestana fora do sítio e é… O CRIME. SOMOS VÍTIMAS DO ASSALTO DO CAPS LOCK E DE QUEM, SEM NADA PARA FAZER, PROFERE INSULTOS A QUEM, DO OUTRO LADO, NÃO SE PODE DEFENDER – muitas vezes, porque nem sabem quem é a pessoa. Desengane-se, aliás, quem pensa que as figuras públicas são o único alvo, não obstante preferencial. Quantos de nós não foram já mal interpretados nas redes, como na vida, e não conseguiram fugir a críticas, ameaças ou falsos testemunhos de quem até desconhecemos a bela face?


Apesar da franca tentativa de algumas destas plataformas, na minha opinião, o problema matricial vai além disso. A sustentação deve estar na educação. Na leitura, no saber, no questionar, na mundividência. A vida é muito mais do que aquilo que percecionamos através de ecrãs. E a crítica, quando não confundida com insulto gratuito, será bem vinda, por quem aspira ser mais e ser melhor.


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