O consultório do padre Amaro

Opinião por Simão Moura


Ao longo destes últimos meses, o passarinho azul tem piado umas coisas giras. Não me refiro à covid-19, nem mesmo às artimanhas dos mui honrados dirigentes dos EUA e dos nossos amigos Brasileiros. Não. Apercebi-me, com uma dose saudável de satisfação, que desta vez fomos nós a fazer barulho. E então li uma das frases mais mágicas que já agraciaram a minha existência: “A Universidade Católica de Portugal vai abrir um curso de medicina”. Esfrego as mãos de entusiasmo. Ou talvez medo. Não importa.


Verifica-se, mais uma vez, a reação que todos aprendemos a adorar. Envergam-se as forquilhas, acendem-se as tochas e pressiona-se o botão do Caps Lock (esse maroto que resolve todas as disputas) . A época da caça às bruxas começou. E ainda que a Universidade Católica de Portugal (UCP) só se aproxime da fé em nome, já é suficiente para nos fazer sonhar.


Há anos que se falava disto. Já em 2019 ocorreu o mesmo debate em que os católicos bateram em retirada, a Ordem dos Médicos vitoriosa. Porque se opuseram à proposta? Não sei. Talvez por uma preocupação genuína pela qualidade dos futuros formandos. Talvez pelo medo da concorrência. Eis a minha teoria: considerando a frivolidade característica da medicina, dada a conhecer em estudos minuciosos como a Anatomia de Grey, estes marmanjos não concordam com a ideia de uma enfermeira com os bons valores morais à antiga. Acabou-se a marmelada na sala do raio X.


O que me interessa aqui são os motivos dos católicos. Talvez seja dinheiro, às vezes os custos do ensino privado e de uma consulta são igualmente absurdos. Ou então é o prestígio. Também é possível que seja o altruísmo característico da fé que emprestou o nome à instituição. Inclino-me mais para os motivos económicos. Não é difícil ver que uma universidade privada com um curso único no país, cujas médias no ensino público são incrivelmente altas, tem muito a ganhar. Aliás, Isabel Capeola Gil, a atual madre superior da instituição já confirmou que o valor da propina “será caro”. Resta saber se sempre haverá um mecenas para financiar o curso, que a madre Gil diz estar à procura no mesmo comunicado. Em último caso, sempre se pode recorrer às indulgências, já que resultaram tão bem no passado. Ao que parece, a Universidade Católica de Portugal partilha com a Igreja não só o nome, mas também as inclinações capitalistas.


Ainda mais interessante é o principal argumento dado pela UCP e os seus apoiantes: há muito mais candidatos a medicina do que vagas. É válido. Mas também é válido lembrar que mesmo entre os que completam o curso, muitos não conseguem vaga para fazer especialização e acabam por ter que deixar o país. Em suma, Portugal já está a produzir mais médicos do que precisa. O aumento do número de formandos só vai acentuar o problema.


Ainda assim, é preciso dar crédito onde ele é merecido, e esta história não é nada mais nem nada menos do que um milagre. A UCP não é só a primeira universidade privada a ensinar medicina, é também a primeira a fazê-lo sem as instalações apropriadas. O problema foi rapidamente solucionado. No dia 9 de setembro, a reitora reuniu com o presidente da Câmara Municipal de Sintra para discutir a “requalificação do edifício da Faculdade de Medicina”, que, segundo o sítio da UCP, vai oferecer instalações e condições “ao nível do mais avançado ensino de medicina que se pratica nas melhores universidades mundiais”. Acredito. Também já se juntou ao Hospital da Luz, em Lisboa. O que se tira daqui? Dentro de alguns anos vamos mesmo ver doutores de hábito. Ao menos os posts no facebook a agradecer a Deus pelo trabalho do médico finalmente farão sentido.


De qualquer forma, a decisão está feita. Resta-nos congratular a UCP pela sua vitória contra os hereges da Ordem dos Médicos e do Twitter. É a concretização de um sonho. Temos agora que esperar os resultados. O máximo que posso dizer com toda a certeza é que setembro de 2021 e os meses que se seguem vão ser interessantes. Vendo pelo lado positivo, as possibilidades são infinitas: inclusão de serviço funerário caso a operação corra mal; hóstia ao pequeno-almoço, almoço e jantar; a junção das taras de freira e enfermeira… o céu é o limite. De resto não tenho muito mais a dizer. Aguardo até à iminente realização do conto “O crime do doutor Amaro”, uma spinoff há muito desejada. Até lá, desejo boa sorte a todos os participantes. Em nome do curso, da propina, e da madre superior Isabel. Amém.


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