• Mafalda Pereira

O cheiro da minha infância

Atualizado: 8 de Mai de 2020

A rua que me viu crescer tem o nome da minha família. Esses poucos metros de estrada guardam os momentos mais reconfortantes que vivi até hoje - os momentos simples, que compõem a minha infância.


Nesta rua vive alguém que não partilha o nome da minha família - na verdade, o apelido “Pereira” só se cruza com ela na altura de fazer uma encomenda para a qual é preciso indicar a morada. Na rua em frente vive outra das responsáveis por colorir a minha infância. Não são sangue do meu sangue, mas estão ao meu lado desde que me lembro de existir.


E desde cedo éramos três. Três crianças para as quais não havia limites nem preocupações. Desde as tardes a ver o pôr-do-sol, até às noites a contemplar as estrelas, muitas foram as conversas que surgiram, mais ainda os sorrisos que brotaram. Rapidamente os encontros juntaram mais de três pessoas, mas só o número é que mudou.


As rotinas que preenchiam o dia-a-dia dos “tenros anos” da minha existência não eram muito variadas. Na verdade, quase todos os dias se guiavam pelos mesmos passos e, embora cada dia fosse novo,  havia algo comum a todos - o facto de a sensação final ser a mesma, uma felicidade inigualável. Os meus dias começavam cedo, quando os meus pais me deixavam em casa dos meus avós e iam para o trabalho.


Entre as horas passadas sem dar conta (o único alarme era o grito dos meus avós para ir almoçar ou jantar), aprendi o significado de amizade. Uma infância não se vive sozinha e a minha não teria sido a mesma sem os que me fizeram entender a importância desse valor. 


Hoje, voltar à casa dos meus avós é um misto de emoções; é estar entre a alegria e a tristeza. É estar, por um lado, no sítio onde fui feliz e me perdi com brincadeiras de criança e, por outro, ver um espaço que está (agora) incompleto, como um puzzle ao qual tiraram uma peça. Alguns elementos da nossa infância não tardarão a ir embora, é o natural decorrer da vida. Aos que ficam, não lhes escapa o tempo - vêmo-lo, até, apoderar-se deles. Torna-se difícil aceitar que os que outrora cuidaram de nós, precisam hoje de ser cuidados, quase como se o ciclo se tivesse invertido. 


Sempre atribuí cheiros a épocas, ocasiões, datas… A minha infância não passa em branco, mas com tantos momentos, torna-se difícil associar-lhe só um. O cheiro do campo, dos cafés tomados em casa dos tios e dos avós. O cheiro dos jogos às escondidas ou das cerejas que ainda hoje crescem, nem que seja na memória da criança que trago dentro de mim.


À Rua dos Pereiras falta hoje uma pessoa, um dos pilares da minha infância. Talvez por isso os olhos que, há uns anos, viviam os momentos que se tornaram nas memórias de hoje, não vejam esta rua da mesma forma. São muitas as pessoas que vão fazer parte da cronologia da minha vida e, nesta fase tão primorosa, não há nenhuma a ser rejeitada. Na verdade, um mero transeunte acaba por completar o cenário que guardo comigo, porque numa melodia, as pausas também são importantes.



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