• Paulo Cardoso

Moullinex: “Falta-me uma vida de trabalho e música”

Começou com 14 anos a descobrir o mundo da música e nunca pensou fazer dela carreira. Moullinex era novo demais para conseguir ter certezas, até que o mundo o surpreendeu e, agora, chama à atenção na Austrália, nos EUA e na América Latina.


Aos 36 anos, há em si um desejo de fazer muito mais. Neste tempo de crise, escuda-se no valor, no trabalho da sua música e na coragem da editora que criou com amigos - a Discotexas. Consciente do momento difícil que as artes atravessam, espera que “o bem-estar e a produtividade dos artistas” continue a influir na “produtividade da sociedade”. E em relação ao futuro? Espera “ver pessoas na rua a celebrar as coisas melhores que a vida tem.”


Quem é o DJ Moullinex?


Moullinex é o nome que eu encontrei para tornar públicas muitas das minhas explorações. Seja a fazer a música, a tocá-la ao vivo com uma banda com o mesmo nome, seja a apresentar-me em DJ set. Acaba por ser o guarda-chuva debaixo do qual ponho tudo o que acabo por fazer, nesta leitura de pista de dança.. A certo momento, começou a surgir alguma atenção e pedidos de trabalho musical, o que fez com que tivesse de começar a levar as coisas mais a sério. Chegou uma altura em que já não conseguia fazer mais trabalho de engenharia e estou a dedicar-me à música, a tempo inteiro, há 10 anos.


De que forma a música chegou à tua vida?


Chegou devagar, apesar de ter tido sempre música à minha volta porque, enquanto crescia, seguia muitos músicos e espetáculos, etc. Um bocado também por vir de uma família orientada para as engenharias e ciências humanas. Acho que implica sempre e também, se calhar, por falta de exemplos de músicos profissionais com estabilidade à minha volta. Tive falta desses exemplos. Nunca foi, para mim, uma hipótese de carreira. Sempre gostei de outras coisas e tive vários interesses. Um deles era a engenharia. Acabei por seguir a minha educação nessa área com a licenciatura e o mestrado. Quando comecei o doutoramento, durante esse processo, andava a fazer música como hobby. Comecei a colocar a minha música online e a certo momento, começou a surgir alguma atenção e pedidos de trabalho musical, o que fez com que tivesse de começar a levar as coisas mais a sério. Chegou uma altura em que já não conseguia fazer mais trabalho de engenharia e estou a dedicar-me à música, a tempo inteiro, há 10 anos.



Onde é que iniciaste o percurso e com que ajuda?


Pouca, porque era uma altura em que não havia tutoriais no Youtube. Eu comecei com 14 anos, com os primeiros computadores que tive. Por ser um bocado nerd e gostar de experimentar os softwares, explorava os programas que tinha e gostava muito dos de áudio. Na altura, não tinha versões finais dos programas, só demos, então tinha de os gravar para cassetes para mostrar aos meus amigos. De referir que, sempre que podia, comprava a revista FutureMusic ou a Computer Music Magazine que mostravam os primórdios da música feita por computador. Chegava a Portugal a edição espanhola e eu comprava-a com religiosidade. Comecei a colocar as coisas na web, em 2006/2007, no MySpace e depois no SoundCloud. Foi aí que tudo começou.


Como é que chegaste a Disc Jockey?


Eu passava música com alguns amigos, em Viseu, simplesmente porque nós queríamos ouvir a música que gostávamos, quando saiamos, e ninguém a passava. Então, começamos nós a fazê-lo. Foi um pouco para responder a uma necessidade. Nunca tive o plano de carreira de ser DJ. Como me começaram a convidar para me apresentar como Moullinex ao vivo, comecei por fazer alguns lives, algumas versões ao vivo das minhas músicas, mas comecei a ganhar o gosto pelo DJ e pela liberdade que temos em criar narrativa com a nossa música e com a dos outros. Gosto do desafio de ter uma pista que não conheço à minha frente e ter de a colocar a dançar. É contar-lhe uma história, envolver e cativar as pessoas na narrativa.



O que é que te liga à tua terra natal?


A Viseu ligam-me os laços familiares. É o sangue que tenho. E muitos amigos que ainda conservo dessa altura. A verdade é que começamos um coletivo em Viseu chamado Mecanismo Divino e foram as primeiras festas em que atuamos enquanto grupo. Foi através dessas celebrações que a Discotexas, a minha editora, começou, porque foi um pretexto para juntar no mesmo espaço físico várias pessoas com quem já estava a trabalhar, remota e digitalmente.


O facto de seres natural de uma cidade do interior limitou-te o alcance do mundo do espetáculo?

Hoje, neste mundo globalizado estarmos à espera de que o vizinho nos ensine a utilizar o software para fazer música não faz sentido. Nunca houve tanto acesso ao conhecimento, tanta democratização das ferramentas disponíveis e canais de distribuição. Não há desculpa para não chegar às pessoas. Qualquer pessoa com empenho e paixão consegue aprender e executar uma arte. É óbvio que, muitas vezes, prende-se com a sorte, mas a sorte também se cultiva com muito trabalho. Quem não sair de casa nunca tem o azar de estar a chover, não é? Eu não sei se a sorte aparece a toda a gente, mas se não acordares de manhã pronto a trabalhar, provavelmente, não te aparece. É a leitura em tudo o que faço e tenho noção que algumas coisas que faço podem correr menos bem.


Procuraste o estrangeiro para atuar ou foi ele que te procurou a ti?


Sinceramente, comecei a colocar as minhas coisas online. Não havia nada que me restringisse. A primeira atenção que tive foi de blogs e promotores de espetáculos, imprensa e público em geral fora daqui - mais do que de Portugal. Eu estava alinhado com o que outros artistas estavam a fazer em França, na Austrália, na Alemanha, no EUA. Acabou por ser uma tempestade perfeita. Efetivamente, foi mais tarde em Portugal. Mas isso tem a ver como os fenómenos há uns anos atrás se propagavam e demoravam mais tempo a chegar ao nosso país. Acho que já não é o caso, hoje em dia.


Quais são os momentos mais marcantes do teu percurso até agora?


Muitos. Eu não sou uma pessoa de ficar muito nostálgico, mas os primeiros tempos em que montámos a editora Discotexas. Ela começou como uma ideia de um coletivo de pessoas a fazer a parvoíces e que tinham gostos comuns de olhar para a pista de dança. Queríamos algo que não devia ser levado demasiado a sério. Esses primeiros tempos são muito ricos na minha memória. As primeiras tours. A primeira vez que fui à Austrália, aos EUA, a possibilidade de ir à América Latina com a minha música. Seja sozinho ou em DJ Set ou com a companhia da banda, tenho sempre boas memórias das viagens. Acho que elas, se calhar, são a melhor coisa que este trabalho tem. Se bem que, nestes dias que correm, estão um bocadinho em pause.


O que falta à cultura e aos artistas em Portugal?

A sociedade, muito por via das crises anteriores, tornou-se muito tecnocrata. Ou seja, tudo o que seja trabalho tecnológico e orientado para objetivos muito tangíveis têm prioridade, tanto nas políticas de educação, como na forma como a sociedade identifica a tua carreira como algo válido ou não. Eu compreendo. Que pai é que quer que o filho vá ser músico se quase todos os exemplos que conhece têm pouca sorte?


A mesma coisa com o jornalismo porque o bom jornalismo está em causa. Mas a verdade é que em alturas com esta nunca foi tão importante. Agora as pessoas dão valor às fontes de informação fidedignas em que são verificadas e que não são alarmistas, nem populistas. Estas disciplinas e artes que olham para a sociedade como sujeito e a interpretam, narram e documentam são o mais importante que temos porque senão não vale a pena termos sociedade nenhuma. Temos de ter uma sociedade que olha para si e para os mais frágeis e os acolhe debaixo de uma ideia maior de coletivo. Quando forem saradas as feridas do vírus, eu espero que haja a oportunidade de as pessoas virem para a rua celebrar as coisas melhores que a vida tem. Dançar com os amigos, ouvir música, ver uma peça de teatro, um bom filme. Obviamente, neste momento o importante são os recursos para a saúde. Mas deve-se pensar na economia como um todo e no bem-estar dos cidadãos como algo muito importante. Como tal, fica o exemplo: a Alemanha, à sua escala, acabou de disponibilizar uma linha de 200 mil milhões de euros só para as artes. É bom saber que lá o bem-estar e a produtividade dos artistas influem diretamente na produtividade da sociedade. Esta é a minha leitura de uma área em que se deve intervir como nas outras.


Ao assumires essa importância, qual é o impacto que pensas que a pandemia vai ter no teu percurso?


Num espaço muito curto de tempo acho que é cedo para te poder dizer o que vai acontecer daqui a três meses, daqui a um ou dois anos. Mantenho-me otimista até porque nesta área de trabalho incerta e tão precária, nós, os profissionais de música em Portugal e de outras artes, já estamos mais que habituados a, de repente, não saber o que fazer. Os concertos até ao final do Verão estão postos em causa, à partida. A minha maior fonte de rendimento é apresentar música ao vivo – seja em DJ set ou em concerto. Tenho os concertos e DJ set cancelados. Não sei quando poderá haver eventos públicos outra vez. Tenho refletido sobre o impacto que isto vai ter com as pessoas que trabalham comigo. Eu e a minha editora estamos a repensar as nossas formas de viver e de promover o nosso trabalho. Mas, sinceramente, não sei como vai ser.


Como é que tens trabalhado online e qual é o feedback que tens dos teus diretos nas redes sociais?


Um dos resultados diretos de as pessoas estarem é casa, é que têm mais tempo para o ecrã. O que em dias normais, se me perguntasses há dois meses se era bom que as pessoas tivessem mais tempo para o ecrã, eu dizia-te que era abominável. A verdade é que, felizmente, esta rede que nos une globalmente está a funcionar como estrutura para nos ligarmos à nossa família. Por mais carinho que eu tenha pela minha avó, a pior coisa que eu poderia fazer agora era estar com ela porque podia contagiá-la. Não quero colocar em causa as pessoas mais frágeis da nossa sociedade pelo egoísmo de estar com ela neste momento. O melhor é manter o isolamento. É uma rede de ligação à família, aos amigos e ao nosso público. Nos diretos que tenho feito, tenho sentido muito carinho. Estou muito contente de estar a fazê-los porque tenho a oportunidade de realizar o que gosto de uma forma um pouco mais distante, mas não menos gratificante. Tem-me enchido o coração ter coisas que fazer e ter estes projetos em mãos. É muito bom.


O que é essencial, para ti, neste momento?


Sentes que há algo por fazer na tua vida?


Sinto que falta fazer muita coisa. Já pensei muito sobre isto: eu não ficaria contente com um sucesso do dia para a noite. Há uma parte de mim, e é comum a todos os artistas, que sente que as coisas que atingi foi por mérito. O meu maior sonho é chegar aos 90 anos e continuar a poder fazer música, que é o que mais gosto. Para isso, preciso de saúde e de pessoas suficientes para me aturarem. Sinto que ainda me falta uma vida de trabalho e música.



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