Mignonnes: a sexualização infantil como descoberta do ser

Crítica por Cátia Beato


O filme tenta retratar a construção da personalidade da criança e a descoberta da sua sexualidade, enquanto luta para entender a imagem da mulher na sociedade atual.





Ficha Técnica: 


Título Original: Mignonnes

Direção: Maïmouna Doucouré

Elenco: Fathia Youssof, 

Médina El Aidi-Azouni, Esther Gohourou, 

Ilanah Cami-Goursolas, Maïmouna Gueye

Distribuição: Netflix

Data de Estreia: 9 de setembro de 2020

País: França

Género: Comédia/Drama

Duração: 96 minutos

Classificação: 16 anos




Logo após a sua estreia na Netflix, o filme francês Mignonnes, ou “Cuties”, foi alvo de críticas e petições para que a plataforma de streaming o retirasse por motivos de “sexualização de crianças”. Premiado em 2019 durante o Festival de Sundance pela sua realização, esta comédia dramática gera agora polémica, pois põe em causa a sua mensagem.


Mignonnes, “fofa” em português, conta a história de Amy, uma menina negra de 11 anos, que ao ser confrontada com o desgosto da mãe, se revolta contra os costumes e hábitos da sua família conservadora e acaba por se aproximar do grupo de raparigas da escola, que se vestem de forma pouco apropriada para as suas idades e que gostam de dançar. De forma a ser aceite, a protagonista muda todo o seu guarda-roupa e aprende alguns passos de dança provocantes, para não dizer “sexuais”. Contudo, à medida que o filme se desenrola percebemos que ela confunde esta imagem de “mulher independente” e começa a utilizar o seu corpo de menina para atingir qualquer fim. E é nesta adversidade que o filme nos deixa, sem conseguirmos perceber qual é a sua moral. 


Ao refletirmos sobre o seu significado, acabamos por questionar as nossas ações e a imagem que estamos a passar para as futuras gerações. Num mundo cada vez mais digital, onde o corpo é cada vez mais sexualizado, a premissa de que uma mulher tem o direito de fazer as suas próprias escolhas e ser quem quiser, pode levar a que a criança entenda que ser mulher é ter todo o poder do mundo. E, será que estamos a educar as meninas, enquanto crianças, para serem mulheres fortes e independentes ou, será que lhes estamos a dar a imagem de que uma mulher pode conquistar o que quiser se souber como utilizar o seu corpo? 


A emancipação da mulher é um tema delicado, mas é necessário falar dele para que no mundo possa haver mudança. Porém, não é preciso meter meninas de 11 anos a dançar de forma provocante, para homens mais velhos, de maneira a transmitir essa mensagem. Existem outras formas que conseguem o mesmo efeito e não são tão abusivas. Na minha visão, a mesma ideia teria sido passada se as crianças fossem adolescentes no final do ensino secundário.


Pondo de parte o seu significado “escondido”, esta comédia dramática tem elementos bons. Os cenários multicolores que contrastam com a pouca iluminação dos espaços dão-nos uma sensação melancólica. O instrumental que nos acompanha ao longo da viagem de Amy cria-nos empatia com esta personagem. O vestuário das mulheres e das meninas retratam o choque entre duas religiões opostas. Contudo, estes dados perdem-se quando somos confrontados com cenas onde o plano principal é o corpo das quatro amigas.


Marshall McLuhan disse, na sua obra de 1964, que o “meio é a mensagem”. Ao ver Mignonnes percebemos que este é um mau uso do meio para comunicar a sua mensagem. A ideia de luta e construção da personalidade da criança, bem como da descoberta da sua sexualidade, passa despercebida quando a protagonista é a autora de alguns dos comportamentos que, na nossa sociedade, são repudiados. Em suma, uma boa ideia, mas mal transmitida cria conflito. E foi o que este filme conseguiu fazer. 


A forma como cada um encara este assunto, acaba por moldar a opinião que tem sobre o filme. Não é uma mensagem universal que chega igual a todos. Cada um vai ver o filme e retirar um significado diferente, pois olha a realidade de outra maneira. Apesar de ser aclamado pelos críticos, o resto da audiência ainda não é dotada para ver além do que lhes é mostrado. Não se pode esperar que todos entendam uma mensagem quando lhes é apresentado o oposto. Por isso mesmo, este é um filme que suscita demasiada controvérsia para quem se depara, pela primeira vez, com o seu conteúdo.  


Provavelmente, será preciso vê-lo mais do que uma vez para entender melhor a visão de Maïmouna Doucouré. Mas este não é um filme para ser visto com as lentes dos valores tradicionais pelos quais fomos criados. Para digerir os 96 minutos de Mignonnes é preciso algum estômago e uma mente livre de preconceitos pois o desconforto será tão grande que talvez acabes o filme como eu, de “boca-aberta”.








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