Música: um refúgio

Opinião por Francisco Amaral


O ano que passou não foi, de todo, aquilo que estava nas nossas expectativas. Ainda assim, posso dizer que, apesar de toda a situação pandémica e quase apocalíptica que vivemos, consegui salvar-me de pensamentos negativos.


Nada fazia prever que em março estaríamos todos fechados em casa. À partida a ideia não me parecia muito má. Estar em casa o dia todo, assistir às aulas em pijama, poder ficar acordado até mais tarde. Não me parecia ser uma rotina desagradável.


A verdade é que, mesmo sendo uma pessoa muito caseira, também eu fiquei afetado com o contexto real que vivemos. Números a aumentar dia após dia, não poder sair de casa, nem para ir visitar a minha avó, ou ir a casa da minha namorada. Depois aconselharam a parar com os almoços de família, algo que no meu caso é praticamente imprescindível. O cenário começava a transformar-se drasticamente, e eu sou um pouco adverso à mudança.


À medida que tudo isto ia acontecendo no nosso mundo, eu tentava fugir para outros. E, então via filmes, lia, jogava. Ia-me distraindo, era tudo o que precisava para sobreviver a um fim do mundo: um bom livro e uma consola. A certa altura reparo que nem isso me fazia distrair do que se estava a passar. O apetite para ler ou pegar no comando era cada vez menor.


Essa terá sido a fase mais negativa que passei no primeiro confinamento. O constante pensamento de que isto nunca mais seria o mesmo, que não haveria um normal depois da pandemia passar, mas e se não passar? Não vai haver mais festas, concertos, festivais, convenções… vai ser tudo online, o toque vai deixar de existir? Fui ao extremo. Pensei demasiado e, como diz o nosso compatriota Pessoa, pensar dói.


Então pratiquei um exercício. Muito simples, e até algo que costuma estar presente no meu dia a dia. Ouvi música. Durante aqueles três minutos não pensei em nada, apenas ouvi.


A simplicidade deste exercício misturado com a complexidade e diversidade que é o universo musical, é terapêutico.


Ouço música praticamente todos os dias. Mas só naquele momento, no confinamento, senti que a música preenchia algo que me fazia falta.


Passei a ouvir novas bandas, estilos fora da minha zona de conforto, música instrumental. Emocionava-me com quase toda a música que entrava nos meus ouvidos. Escolhia o álbum, pressionava play, encostava-me à cadeira, fechava os olhos e disfrutava do som, das palavras, da melodia. Tudo estava em perfeita harmonia, naquele momento. As preocupações ficavam arrumadas numa gaveta. Sentia-me leve.


Desde então tem sido quase um ritual. Todos os dias, tiro um tempinho para relaxar, fechar os olhos e ouvir. Escutar álbuns de início ao fim é uma experiência enriquecedora, para entender e encaixar as peças do puzzle que é a mensagem daquele disco.


O que me transporta para outros mundos é, talvez, a música instrumental. Épica, simples, pesada, leve, complexa, nostálgica, faz-me logo imaginar outro cenário e uma situação diferente. É a peça que encaixa, a orquestra que preenche a vida.


Quando tudo parece complicado, às vezes só precisamos de nos encostar à cadeira e imaginar, sempre com a banda sonora a ajudar.

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