Linhas de Liberdade

Cedo entendi o que significa Abril. O nosso país era um “país de nãos” e quem ainda cá anda recorda bem a fome, o terror, o regime que negava a liberdade aos cidadãos e que asfixiava duplamente as mulheres.


Um regime político ditatorial, corporativista, colonialista, conservador e autoritário que vigorou no nosso país durante 48 anos seguidos, desde 1926 até à célebre revolução do 25 de abril de 1974. Um regime ditatorial criado por vários nomes, como salazarismo ou Estado Novo. O uso do termo “salazarismo” deve-se a António de Oliveira Salazar, Ministro das Finanças e figura preponderante no governo da Ditadura Militar. Desde então passaram quarenta e sete anos e é necessário relembrar o passado (às vezes, ainda com ecos no presente).


“Escolher” era um verbo que não tinha lugar na época. O povo desconhecia a liberdade, direitos, apenas conheciam deveres num tempo também marcado por uma grave distinção entre géneros. Os homens eram obrigados a ir para a tropa e partir para a guerra, deixados à mercê da sua sorte e longe das famílias acabavam por morrer ou voltar feridos. Às mulheres era reservado um papel secundário na sociedade, resignadas ao trabalho doméstico, a uma função submissa e às vontades do marido. Nomeadamente, a Constituição de 1933 afirmava a igualdade dos cidadãos perante a lei no art. 5º, no entanto, abre uma exceção às mulheres pelas “diferenças resultantes da sua natureza e do bem da família”.


O regime apoiava-se na censura, na propaganda, nas organizações juvenis e paramilitares, no culto do líder e na Igreja Católica. Para impedir que surgissem ideias de mudança, o Estado criou uma estrutura própria e um aparelho repressivo, a PIDE, que controlava tudo o que as pessoas ouviam e liam, dessa forma, só tinham acesso a conteúdos permitidos. O que conhecemos hoje como sistema nacional de saúde, reformas, férias e subsídios não existiam. Uma sardinha era dividida e tinha de dar, em muitos lares, para todos aqueles que se sentavam à mesa que eram sempre muitos. Nas gavetas havia apenas côdeas de pão velho. Não havia eleições livres e a população estava revoltada, descontente e farta de trabalhar “de sol a sol”. Queriam, acima de tudo, liberdade para pensar, para viver e para ser.


O dia da Revolução


Poucos minutos passavam da meia-noite de 25 de Abril de 1974 e o Movimento das Forças Armadas colocava em marcha o plano. Através da rádio estava dado o pontapé para uma revolução que iria pôr fim a quase meio século de ditadura. Às 00h20 a Rádio Renascença passava “Grândola, Vila Morena” de Zeca Afonso e logo nas primeiras horas da manhã, os militares ocuparam pontos estratégicos em Lisboa. As ruas enchiam-se de pessoas que gritavam liberdade. Celeste Caeiro, distribuía cravos pelos militares, que os colocavam no cano da espingarda, e pelos civis que os colocavam ao peito. O que era para ser um golpe de estado tornou-se numa revolução pacífica.


Reviver Abril é sentir um arrepio no corpo. Hoje, somos mais os que nascemos em liberdade. Parte daquilo que sei sobre a vida antes do 25 de Abril foi-me dito pelos meus avós e pessoas mais velhas. Possivelmente, as gerações futuras não terão sequer a oportunidade de ouvir aquilo que nos foi contado na primeira pessoa. Por isso, cabe-nos a nós fazer com que os erros do passado não sejam repetidos no futuro, a luta pelos direitos nunca foi, nem nunca será garantida.


Cada vez mais são precisos gritos, vozes e ruídos. É necessária inquietação. A Democracia necessita não só de cidadãos informados, mas também de representantes que a saibam defender devidamente numa altura em que movimentos extremistas aumentam gradualmente em todo o mundo e ameaçam a nossa liberdade individual, mas também coletiva.


A Democracia foi e é um trabalho duro.

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