• Catarina Magalhães

Jornalista do Passado

Isabel Stilwell é uma conhecida jornalista e escritora portuguesa. Aos olhos do grande público, será mais reconhecida pelos milhares de exemplares, que já vendeu, de romances históricos sobre as rainhas de Portugal. Mãe e avó são os papéis em que se sente mais feliz. “Pensem pela vossa cabeça”, sempre de mãos dadas com o humor, é o conselho que Isabel deixa às gerações futuras.


Assume que a sua mãe veio para o nosso país “por amor”. Por que é que a Isabel decidiu cá ficar?


Eu sou a sétima de oito irmãos e nascemos todos em Portugal (embora no British Hospital) e os meus pais viveram sempre cá. Embora as ligações a Inglaterra fossem, e continuam a ser, fortes, considero-me portuguesa de gema e não queria viver noutro lugar.


O que é que sentiu ao ingressar no curso de Comunicação Social, depois de ter estudado História?


Os meus pais aceitaram bem a mudança, embora o meu pai tivesse ficado triste, porque ele próprio era formado em História, pela universidade de Oxford, e sabia que eu gostava imenso de História. Mas a minha teoria, que se veio a provar certa, é que no jornalismo podia ligar-me também à História. E, de facto, o que mais gosto no jornalismo são as histórias das pessoas.

Créditos: Wook

Por que se assina primeiro como jornalista e só depois como escritora?


Porque é assim que me sinto. O jornalismo é como usar óculos, nunca mais conseguimos olhar para nada sem ser através das suas lentes. Com o jornalismo vem o meu desejo de contribuir para transformar o mundo num sítio melhor, seja pela denúncia das injustiças, seja pela divulgação dos bons exemplos. Mesmo nos meus romances históricos, o que em grande medida estou a fazer é ser jornalista do passado. Procuro os factos, as histórias, e depois conto-as.


Com uma carreira tão vasta e diversa no jornalismo, como é que surgiu a vontade de escrever o primeiro livro?


O primeiro livro chamou-se “Guia para ficar a saber ainda menos sobre as mulheres”, e soube-me a recreio. Divertiu-me muito, e vê-lo publicado com ilustrações da Fernanda Fragateiro foi um momento marcante. Depois houve a experiência de escrever com a minha filha livros para adolescentes, e, mais tarde, com os meus outros dois filhos livros para crianças. Foram todas experiências diferentes e que me deixaram feliz.


Os romances históricos são outra história. Surgiram de um acaso e acabaram por se revelar uma parte muito importante da minha vida profissional.


Qual é o grande desafio de escrever para crianças? Sente que são um público mais difícil de conquistar?


Quando escrevo para crianças, escrevo para mim. Sou muito ‘Peter Pan’ nas minhas escolhas literárias, muitos dos livros de que mais gosto são supostamente para crianças e adolescentes. Por isso não me custa nada. E, pelos vistos, eles gostam.


Sendo que considera a falta de sentido de humor “uma das piores doenças”, de que maneira está presente nos seus livros?


O sentido de humor é (ou não) intrínseco a quem somos, por isso aparece sempre nas linhas e nas entrelinhas dos meus livros. Nos romances históricos, há sempre uma ou mais personagens com que criei uma empatia especial porque pressenti — pelo que escreveram, disseram ou fizeram — que tinham sentido de humor. Que eram capazes de rir de si próprias e do mundo.


Qual é que acha que é o segredo para conquistar tantos leitores para os seus romances históricos, tendo em conta o “mediatizado” crescente desinteresse na leitura?


Não sei se há desinteresse na leitura, afinal estamos sempre a ler nos telemóveis e nas redes sociais. E, mesmo nos livros, estou segura de que se lê mais. Muitas vezes comete-se o erro de comparar uma elite que de facto lia muito com o resto da população, que a grande maioria só tinha a 4.ª classe e nunca pegou num livro. Como vê, sou otimista.


Quanto aos romances históricos, acho que consegui, de alguma maneira, ajudar a despertar o interesse pela nossa História, porque é protagonizada por gente de carne e osso, em três dimensões. Só aprendemos quando nos ligamos. Decorar datas, falar de heróis como se tivessem nascido já nos altares, é meio caminho andado para esquecer logo depois do “teste”.


Considera o ensino da História deficitário, no ensino básico e secundário, em Portugal? No sentido de se centrar em conquistas no masculino, e colocar em segundo plano as personagens femininas…


Obviamente que a História foi sendo contada maioritariamente pelos vencedores, e os vencedores eram maioritariamente homens. Os cronistas eram homens, e durante muitos séculos eram os homens que aprendiam a escrever, e escreviam sobretudo sobre outros homens. Mas, de facto, os personagens masculinos estiveram no primeiro plano, e não podemos ignorá-los na ânsia de trazer ao primeiro plano as mulheres. Temos é de saber procurá-las, descobrindo como conseguiram tirar partido das circunstâncias em que se encontravam, para fazerem a diferença. Para o bem e para o mal.



Como é que se desenvolve o seu projeto de pesquisa para cada novo romance histórico?


Primeiro, escolho a minha personagem. É preciso que seja alguém com quem sinta empatia e simultaneamente me desperte a curiosidade de saber mais sobre ela. Num segundo momento, leio tudo o que encontro sobre a pessoa em questão, sobre o seu tempo, obras publicadas e documentos, cartas, diários que encontro nos arquivos. Em cada livro tenho contado com o apoio de uma historiadora, que me ajuda a navegar nos arquivos, ou encontra aquilo de que procuro. O terceiro passo é visitar os locais onde viveram, onde aconteceram os momentos mais marcantes da sua vida. Não importa se só lá estiverem já pedras. Importa-me a geografia do sítio, a luz, tanta coisa… E, depois, começo a escrever.


Porquê rainhas? E porquê portuguesas?


A primeira, a rainha D. Filipa de Lencastre, foi a resposta a um desafio de uma editora. Foi a única princesa inglesa que foi rainha de Portugal. Seguiu-se Catarina de Bragança, a única princesa portuguesa que foi rainha de Inglaterra. A partir daí, para cada uma houve uma razão diferente.


Qual foi aquela que mais a surpreendeu?


Talvez Isabel de Borgonha, a única mulher da Ínclita Geração. A filha de Filipa de Lencastre foi uma das mais poderosas mulheres da Idade Média europeia e, no entanto, antes de começar a pesquisar não sabia nada sobre ela. Falamos sempre do Infante D. Henrique, mas sem o apoio da irmã não teria ido tão longe.


Com qual se identifica mais?


Sinceramente, não me identifico com nenhuma. Mas gostava de ter sido amiga de todas.


Se pudesse, qual gostaria de entrevistar e porquê?


Acredite que sinto que já as entrevistei a todas. Dois anos a ler tudo o que existe sobre elas, nalguns casos as cartas e os diários, dão-me sempre a certeza de que já as entrevistei de facto. Mas, como nas entrevistas, também nestas nem tudo é revelado.


Considera que estamos a caminhar no sentido de deixar de ser “a man’s world”, para uma sociedade mais igualitária?


Tenho a certeza de que sim. Quero uma sociedade de direitos iguais, mas em que se valoriza a diferença, nomeadamente entre homens e mulheres. E espero, sinceramente, que o politicamente correto não nos engula a todos, porque ficávamos todos a perder.


Dito isto, acho que há ainda muito a fazer e temos de ter mais coragem para denunciar as violações aos direitos humanos em geral, e aos das mulheres em particular, sobretudo nos países onde a mulher é ainda profundamente oprimida.


Por último, se pudesse deixar uma mensagem às gerações vindouras, qual seria?


Pensem pela vossa cabeça.

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