• Tomás Barros

Irão, Estados Unidos e uma farsa


Na última semana, a tensão subiu a olhos vistos com a possibilidade de guerra entre os Estados Unidos da América (EUA) e o Irão, com as nações a trocarem ataques entre si, em jeito de toma lá, dá cá. Agora que o clima está mais ameno, talvez possamos refletir sem tanto histerismo. É de notar que as pessoas olham para estes acontecimentos como o advento da III Guerra Mundial, talvez não seja assim tão grande cataclisma.


Sob a presidência de Donald Trump, os Estados Unidos já tomaram diversas decisões e ações que são, no mínimo, deploráveis. A saída do Acordo de Paris, a retirada da assinatura dos Estados Unidos no tratado delineado para reduzir a capacidade do Irão de enriquecer urânio, entre tantas outras. No entanto, este ataque pode muito bem ter sido a cereja no topo da poia que tem sido o mandato de Trump.


Para os mais esquecidos, a tensão com o Irão não teve início somente agora ou em 2018 aquando da retirada da assinatura. São anos de picardias, sanções e as típicas mentiras. No fundo, é uma relação de adultério em que já não existe confiança, sexo, ou qualquer demonstração de amor, mas ainda assim partilham casa. Volta e meia o verniz estala e em vez de uma discussão, voam pratos, talheres e, neste caso, mísseis.


Fonte: Agência Reuters
Fonte: Agência Reuters

Outra nuance cómica é o local onde têm sido realizados os ataques. Passo já a explicar: O Irão tem um vizinho chamado Iraque, os EUA assassinaram o general Qasem Soleimani (morte que catalisou este crescendo de agressões), no Iraque. O Irão, para retaliar e trazer alguma vingança ao seu povo enraivecido, ataca um posto militar dos Estados Unidos precisamente no Iraque. O que é que isto nos diz? Diz-nos que o Iraque é aquele pátio onde se vão acertar as contas. “Aí é? Às 18 horas no Iraque tratamos disto, não vale levar amigos”. O Iraque, quase sem qualquer poder negocial, limita-se a ver as explosões um pouco por toda a sua casa.


Outro dado curioso é que o ataque do Irão não causou qualquer tipo de baixas... Estranho, não é? Que falhanço, é como dar um soco e acertar no vento. Mas atenção, para além deste tipo de ataques já serem regulares, alegadamente os EUA foram avisados da eventualidade do ataque. Agora questionam-se: Porque raio é que vão avisar que vão atacar? É muito simples, mortes equivalem a uma maior escalada de violência e a uma potencial guerra a todo o gás. Este ataque serviu somente para apaziguar o povo iraniano revoltado. No fundo, representa uma mãe chateada que delega o pai aplicar o castigo ao filho. No fim o pai, para não arranjar problemas com ambas as partes, acaba então por arranjar um acordo com o miúdo: “Para todos os efeitos castiguei-te, diz à tua mãe que te proibi de veres Netflix ou assim.”


Humor à parte, felizmente o senhor Trump já veio a público referir que não é a sua intenção entrar em guerra com o Irão. Foi muito bom vê-lo ser obrigado a proferir aquele discurso que, claramente, não foi preparado por si. Sentia-se a insatisfação de longe. Será que foi a primeira vez que engoliu um sapo?

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