Falemos sobre tentar…

Artigo de Opinião por Iliane Soares


Há uns dias dei por mim a pensar nas coisas que se têm dito sobre a canção selecionada para representar Portugal na Eurovisão, em maio deste ano na cidade de Roterdão. A escolha de “Love is on My Side”, do grupo musical The Black Mamba, tem sido alvo de imensas críticas porque, veja-se lá, tem uma letra em inglês. Desde ser “uma vergonha” a “não fazer sentido”, o que é certo é que o sentimento de desaprovação gira apenas em torno do facto de não se tratar de uma música em português. Ora... E se falássemos da música em si e do potencial que terá?


E se, mais do que uma representação de patriotismo, olhássemos para esta participação como uma forma de mostrar que há diversidade e qualidade musical? Sim, porque... ao longo da história do Festival da Canção tivemos diversas oportunidades para inferir que por uma canção cumprir o requisito de ter uma letra escrita na língua de Camões não está obrigatoriamente vestida de bom gosto e originalidade. Mas já estou a divagar.... Seja como for, esta escolha representa algo que vai muito além de uma mera participação. Estamos a fazer algo que nunca fizemos: enviar uma música em inglês. E não me sinto menos representada por isso, muito pelo contrário. Estamos a tentar algo diferente. Bem ou mal, tentámos. E isso diz muito sobre nós.


Se recuarmos na nossa história, bem nos apercebemos que tentar é algo próprio da condição humana, e nem precisamos de sair do nosso país para nos apercebermos disso. Desde partir em naus à procura do desconhecido, a partir num carro em busca de uma vida melhor noutro país. No fundo, tentar é uma coisa extremamente portuguesa, devo dizer!


A vontade de querer mais e melhor sempre esteve subjacente à nossa existência (senão não havia inovações e ainda viveríamos à luz das velas). E o alcançar algo melhor passa por tentar, quer queiramos quer não. No entanto, parece que cada vez mais a tentativa é espezinhada por quem não quer sair da sua zona de conforto e observa com desdém quem se sujeita ao escrutínio de olhares alheios que os inundam de opiniões que ninguém pediu. Mas, compreende-se. Se o desconhecido assusta, também causa desconfiança e uma sensação de certeza no fracasso. Certeza tal que minimizar o esforço de quem tenta e reduzir a fiabilidade da sua ambição se torna prática comum. Olham para a tentativa como uma frivolidade que de hoje para amanhã é posta de lado e que, portanto, não há mal em abalar, não se apercebendo do significado que tem para quem tenta.


Tentar é um ato de coragem. Quem tenta expõe-se a um público cético que estará na primeira fila para assistir à grande queda (mesmo que depois se levante). Contudo, mais do que o tropeçar e o cair, os olhos curiosos sentem mais interesse e satisfação pelo momento em que se arrumam as estacas e se dobra a tenda. Aí sim, o trabalho está completo. A desistência foi consumada. Se bem que, os tropeções são também um espetáculo particularmente regozijador para estes autodenominados jurados. No entanto, para mim, é o mais belo e o que merece mais respeito. É o revelar a nu que há falhas a colmatar e que o caminho não será fácil, talvez nem possível, mas que a vontade latente no olhar confiante de quem acredita ainda se mantém firme debaixo de todos os sinais que insistem em demovê-la.


A tentativa ainda se torna mais alvo da minha admiração graças à inevitabilidade do erro. Erro esse que, para muitos, é a última cartada que hipoteca toda a jornada. Erradamente. O falhanço é essencial. É a forma, ainda que mais abrupta, de nos refinar e mostrar o caminho mais adequado. Mas também é um filtro. É aquele que distingue quem de facto quer seguir em frente e acredita com todas as duas forças e quem não. O saber que a hipótese de falhar está ao virar da esquina e continuar a jornada é, a meu ver, o dissipar de todas as dúvidas. Por isso é que o erro é bonito e enche de carga e responsabilidade a tentativa. Muitos casos de sucesso da atualidade são fruto de muitas tentativas, de muitas derrotas e de aperfeiçoamentos.


Peguemos num Fernando Daniel, por exemplo. Depois de uma curta passagem por uma edição do Fator X e de uma segunda tentativa numa outra temporada do mesmo programa (fora inúmeras atuações em bares e afins); lá tentou de novo no The Voice - Portugal onde executou uma das blind auditions mais vistas do mundo (contando com mais de 105 milhões de visualizações. Coisa pouca), juntando-se-lhe uma carreira de sucesso na indústria musical. Dá que pensar? E eu nem sequer sou grande fã do género musical!


Portanto, se alguém segue firme rumo a um objetivo, mesmo que nos faça torcer o nariz, lembremo-nos que poderá haver todo um percurso de muita insistência de quem quer e sente que merece mais ou então que simplesmente quer ver no que dá, como enviar uma música em inglês para um concurso (por exemplo, não sei). E não há nada de errado nisso. A esses corajosos que tentam: Muita força.

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