‘Estou-me a passar’

Opinião por Simão Moura


O stress, a depressão e a ansiedade entram num bar. É uma piada famosa. Coincidentemente, é a vida dos jovens e crianças nestes últimos tempos. Desta vez são os hospitais e estudos científicos que a contam, mas só a covid é que se ri. Numa reviravolta fulminante, verifica-se que mais de um ano de pandemia faz mal à saúde mental, sobretudo quando ela ocorre na “idade da parvoeira”.


Enquanto “gato caseiro” que sempre fui, admito que demorou um bocado até o confinamento me começar a roer os nervos. Quer dizer, sim, estava tecnicamente em prisão domiciliária, mas não é como se saísse muito de casa na era pré-covid. Ao menos não tinha que me preocupar com a minha aparência antes das aulas. Depois os professores começaram a pedir para ligar as câmaras, mas isso são outros quinhentos. Não obstante, isto leva-nos a uma verdade incontornável: o mundo continua a girar. As aulas não pararam, e os mui honrados docentes quiseram lembrar-nos disso da melhor forma que sabem: uma tonelada de trabalho. Algumas pessoas chamar-me-ão de preguiçoso por isto. Algumas pessoas terão razão. Suspeito, também, que poderão mudar de ideias quando lhes mandarem fazer uma reportagem fechados em casa.


Normalmente, a cura para o stress que isto causa seria fácil de administrar. Sair, dar uma volta, beber com os amigos e acordar no dia seguinte na praça em roupa interior. É para isso que se pagam as propinas. É só que isso já não é permitido. Não foi durante muito tempo. Não é preciso um génio para saber que esta combinação é um barril de pólvora perfeito. A pressão aumentou, as semanas tornaram-se meses, e lá se iam esgotando os memes e as séries no Netflix.


São os conhecidos “problemas de primeiro mundo”. Mas eis a questão: não sou o único a queixar-me. E enquanto estou aqui, a pensar em fazer piadas com algo que, francamente, não tem graça nenhuma, há malta da minha idade no hospital porque teve ataques de ansiedade. Mais importante, há malta ainda mais nova do que eu a entrar em depressão, farta de olhar para as mesmas quatro paredes. Jovens que se esqueceram de como é ir ao café com os amigos. Crianças que já não jogam à bola com os colegas há meses. Pessoas fartas de estar em casa. E pessoas com medo de sair de casa. Leu-se, há uns dias, no jornal Público, o caso de uma adolescente que foi parar ao Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC) com medo de apanhar o vírus na escola. Outra com receio de ser infetada e transmitir a doença à mãe, que trabalha num lar de idosos. Gostava de ser otimista ou ignorante o suficiente para achar que estes são casos isolados.


É simples. De um lado, o desejo de aproveitar os benefícios da juventude, que estamos fartos de ouvir ser limitada. Dos cinco aos vinte e cinco anos, é-nos dito que estes são os melhores anos da nossa vida. Imaginem não os conseguir aproveitar. Do outro, a descoberta que, de repente, sempre que pomos uma máscara, somos responsáveis pela saúde da nossa família e amigos. Sempre que a tiramos, podemos estar a arriscar o seu bem-estar. Talvez a sua vida também. A cabeça de crianças não foi feita para lidar com estas responsabilidades, e a de adolescentes foi feita especialmente para as ignorar. De repente apareceu a covid-19 e viram-se obrigados a contrariar a sua natureza e lidar diariamente com uma realidade que nem todos os adultos conseguem aguentar.


Seria fácil dizer que o vírus causou danos psicológicos a todos nós, e não seria errado, muito pelo contrário. Todos tivemos de abdicar de alguma coisa, seja um evento, os nossos planos, a nossa formação, ou até um familiar e do direito de nos despedirmos dele. A questão é que, em cima disso, estamos a pedir aos nossos jovens para abdicarem de uma parte fundamental das suas vidas também. E eles têm cumprido, ainda que a um custo enorme. Volto aos casos que falei no CHUC e pergunto: Quem está surpreendido?


Os universitários, grupo no qual me enquadro (nem sempre com orgulho), são um caso que, à primeira vista, não cumpriu tão bem. À segunda, são um paradoxo, e, à terceira, se nos atrevermos a tal, causa dores de cabeça que rivalizam o síndrome de época de exames. A conclusão a que cheguei, no entanto, após meses de aulas em regime misto, é que os estudantes do ensino superior fizeram o que fazem melhor: vestiram as suas calças de adulto e prontamente perderam-nas algures no meio de um turbilhão de maluqueira do qual não se conseguem, ou querem, recordar. Resumidamente, muitos não conseguiram esperar até a pandemia estar controlada e saíram mesmo assim. A satisfação imediata e alívio de finalmente saírem de casa depois de meses de ansiedade rapidamente foi substituída, em muitos casos, pela culpa. Em suma, muitas saídas precoces que acabaram por causar mais nervos do que aqueles que presumiam resolver. Imaginem agora como andam os estudantes de Erasmus, longe da família e com a dificuldade acrescida de viajar num avião nestes tempos.


Concluindo, o futuro não parece promissor, não por causa da pandemia em si, mas por causa dos danos que causamos no seu combate. Forçamos os jovens a crescer antes de estarem prontos, e os recém-crescidos a abdicar das vantagens pelas quais esperaram tanto, e das quais se iam, supostamente, lembrar durante o resto das suas vidas. Penso que não é um problema tão grave como a covid-19 propriamente dita. Só é pena que não se resolva com uma vacina.


0 comentário

Posts recentes

Ver tudo
Contacto
  • Facebook
  • Instagram
  • Ícone cinza LinkedIn
  • Grey Twitter Ícone
This site was designed with the
.com
website builder. Create your website today.
Start Now