• Mafalda Pereira

Em busca do reflexo “perfeito”

A imagem pessoal é cada vez mais valorizada, sendo assumida como um fator de avaliação social. Intervenções cirúrgicas, produtos de estética capazes de camuflar imperfeições de um verdadeiro “eu” e a procura pelo corpo perfeito, denunciam a sobrevalorização da imagem na atualidade.


É por isso que corresponder às expectativas de uma sociedade de aparências se torna muito comum. Numa altura em que a inovação está longe de estagnar, facilmente se encontram produtos que articulem a beleza à tecnologia.


Fonte: https://www.himirror.com/en-GB/

Atrás do reflexo de cada indivíduo estão escondidas as suas maiores inseguranças. Simon Shen foi o criador de um projeto que demorou 3 anos a desenvolver-se e que se foca, exatamente, neste aspeto.

HiMirror, como foi batizado, é “o espelho mais inteligente do mundo” e funciona como um conselheiro de todas as horas, no que diz respeito à questão da beleza. Este dispositivo promete responder às necessidades de cada um através de uma avaliação visual da pele, sendo capaz de recomendar produtos de beleza adequados e com resultados eficientes. Por sua vez, durante este processo, o utilizador pode ligar-se às suas redes sociais preferidas.


Assim que soube da existência deste produto, imaginei-me a mergulhar no mundo de Black Mirror, onde as consequências das tecnologias resultam em situações imprevistas e, muitas vezes, irreversíveis.


Em What Happened to Monday, um filme de 2017, há um aparelho semelhante ao HiMirror, embora a história deste nada tenha a ver com o pequeno pormenor do espelho. No caso do filme, no seu reflexo, as personagens veem indicados quais os pontos da cara que têm de corrigir, de modo a corresponder à imagem perfeita de uma identidade idealizada.


Fonte: http://kristofferbrady.com/project/whathappenedtomonday


A verdade é que quem não se sente confiante com a sua imagem começa a olhar-se ao espelho de forma diferente e a achar que há algo que tem de mudar no seu aspeto, para poder aparentar ser alguém que, na realidade, não é. Esta insegurança à frente do espelho, pode levar ao aparecimento de sintomas, como a ansiedade e a depressão, que se podem manifestar através de várias dificuldades a interagir socialmente. Um aparelho como este espelho inteligente só vem alimentar esta problemática.


A tentativa de adaptação aos padrões atuais provoca, muitas vezes, o efeito contrário - o isolamento social. Este é um problema que afeta, principalmente, os jovens que são, desde cedo, estimulados, através das redes sociais, a criar uma “imagem ideal” que vem automaticamente (e erradamente) ligada à personalidade. São, também, os jovens que acabam por ceder a estas pressões sociais devido a serem alvo de críticas por parte de semelhantes.


Surge cada vez mais uma sociedade superficial, avaliada apenas por fora, que despreza valores e sentimentos. A verdadeira essência de um indivíduo não pode ser entendida através de um espelho, esse apenas mostra aquilo que todos podem ver.

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