• Tomás Barros

E se o futebol não for, sei lá, assim tão importante?

Se não concordaram com o título, certamente não vão apreciar o restante deste artigo, por isso podem preparar à vontade todas as vossas tochas e forquilhas. Eu hei de manter-me aqui no meu único pedestal, aquele que todos possuímos, de nome opinião.


Nós, como bons portugueses, nascemos dotados de uma predisposição para perceber de bola, ou assim achamos. Uma coisa é certa. Se há coisa que não aguentamos é que nos tirem o futebol. Há pessoas que acham isto ridículo, mas futebol é mesmo das coisas mais importantes para a nossa nação: basta notar o tempo reservado em quase todos os canais generalistas para debates sobre este, o desporto “rei”. SIC, RTP, TVI e CMTV têm combinados entre si mais de 10 programas dedicados a futebol, nem é a desporto no geral, somente em relação a futebol.


O cúmulo é viver num país doente, em que um dos sintomas mais vincados é esta febre futebolística, e que nem se tenta curar. Vivemos num país em que se assiste mais a outros debater futebol do que a efetivamente ver futebol. É, no mínimo, cómico.


É este o país em que o prémio para combater na linha da frente a Covid-19 - literalmente enfrentar a morte olhos nos olhos - é ter a fase final de uma competição europeia numa capital fustigada com centenas de novos casos quase todos os dias. Talvez, no futuro, os funcionários públicos comecem todos a ver a sua remuneração ser feita através de subscrições da Sport TV e os subsídios de Natal e de férias serem umas chuteiras e umas caneleiras. Acho que já estivemos mais longe disso.


O problema reside em todos aqueles que não ligam nada a este desporto. Que será feito destes? Vão lhes ser oferecidos cursos online para ajudar a perceber os pontapés furiosos no esférico? Só assim é que podem ficar incluídos nesta sociedade, caso contrário não estou a ver as coisas bem-paradas.


Portugal vive num ciclo eterno: primeiro há antevisão, depois o jogo e, por fim, a análise. Depois, o processo repete-se, isto para o campeonato, depois ainda há as competições europeias e a seleção algures pelo meio. Ser português resume-se a isto. O que me impede de dormir à noite é refletir se, num universo alternativo, sci-fi e rebuscado, em que as vozes engrossadas pelos gritos viris dirigidos a equipas, fossem substituídas por vozes focadas no debate de assuntos, quem sabe, mais… importantes? Mas pronto eu, ocasionalmente, ainda grito golo. Posto isto, provavelmente devo ter perdido a minha credibilidade... se calhar, até tenho também essa “doença”. A diferença é que consigo driblar os sintomas.


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