Coronavírus: Uma janela de oportunidades

Opinião por Afonso Mendonça


Um cientista eticamente obscuro acaba de desenvolver uma versão modificada de um vírus comum, muito mais contagioso e, sobretudo, mais letal. Rejubila no seu laboratório altamente equipado e está pronto para comunicar o sucesso da sua pesquisa à empregadora ("uma das muitas empresas pertencentes a uma grande entidade multinacional), esfregando as mãos ao pensar na avultada remuneração que o aguarda e face à perspetiva do seu mais do que provável envolvimento em projetos semelhantes no futuro, numa lógica cíclica e cuja motivação de fundo é económica. Está preparado e procede à infeção daquele que virá a ser o paciente zero, desencadeando todo o processo pandémico. Esta poderia muito bem ser uma das mil versões por aí apontadas (sobretudo para os mais atentos às designadas teorias da conspiração) para a origem da Covid-19, nome da doença provocada pelo novo coronavírus, que é o tema (único) do momento.


No entanto, estudos apontam para a origem totalmente natural do vírus. Ou seja, a modificação do organismo terá sido desencadeada pela seleção natural, partilhando como pano de fundo a mesma “lógica” que originou o conjunto de características que levaram, no período devoniano, a que um peixe primitivo se tornasse num tetrápode, aventurando-se em terra firme e, eventualmente, dando origem aos humanos. Esta lógica excecional cujos mecanismos são estudados e desconstruídos pela ciência, muito por força do trabalho de Darwin, continua a deixar a humanidade profundamente intrigada no que diz respeito à sua natureza aleatória ou propositada e quanto ao seu real objetivo (ou falta dele, sendo que ambas são algo perturbadoras), remetendo este último ponto para um prisma de fé ou não na existência de um “Deus” consciente, seja qual for a sua natureza. Uma coisa é certa, tudo parece pontualmente sincronizado e oportuno, sobretudo no caso da Covid-19.

A proliferação do uso da tecnologia

Atendamos à época que vivemos e a alguns dos tópicos em cima da mesa: a incontornável problemática das alterações climáticas, a dificuldade em aplicar na prática algumas políticas bem teorizadas sobre como incrementar os índices de sustentabilidade em países altamente industrializados, o melhoramento do ensino e também da saúde por via tecnológica, sobretudo numa época em que são cada vez mais o número de estudantes em diversos níveis de ensino e o aumento do número de pessoas que têm acesso a cuidados de saúde e os procuram, sobrecarregando, por exemplo no caso português, o Serviço Nacional de Saúde, muito por fruto das chamadas “doenças modernas”, que muito assentam na prevenção e tratamentos precoces, e ainda o envelhecimento da população, devido ao aumento da expectativa de vida. Também se discute, ainda, o exponencial aumento da população, nomeadamente na China.


Montagem por Afonso Mendonça

Estamos na época em que Greta Thunberg é o rosto do combate às alterações climáticas e Elon Musk o da tecnologia vanguardista. Pois bem, a Covid-19 surge subitamente (não estávamos devidamente preparados nem alertados para ele) e esmaga quaisquer propostas para diminuição de emissões de CO2 de uma só assentada, travando quase a fundo as engrenagens do motor aparentemente imparável da economia mundial e ameaçando com mortes e permanente clima de medo e incerteza infernais quem ousar ignorá-lo. Mais: parece uma mensagem, visto que “possibilita” a descoberta de um antídoto (vacinação), mas que demora tempo. E é um tempo que nos obriga a parar indústrias e que, até ver (ainda estamos só no início!), já levou à redução média de um milhão (!) de toneladas de CO2 por dia numa dimensão global. Se quisermos ir por aí, também aparenta escrever mensagens poéticas, de um cariz quase perverso: veem-se águas cristalinas em Veneza, logo agora que queríamos visitá-las para contemplar a sua enorme beleza e não podemos sair. Mostram-nos fabulosas imagens especializadas da terra, por intermédio da NASA, em que podemos constatar a diminuição da poluição sob uma imensidão azul e verde, enquanto estamos confinados às nossas pequenas casas.


Noutro campo, os órgãos de ensino e os estudantes debatem-se para se manterem o mais próximo possível da normalidade, nomeadamente os universitários, com recurso ao teleensino. Aquilo que, para muitos, parece uma novidade tecnológica, está já há algum tempo disponível de um ponto de vista técnico e conceptual ainda mais, ou não fosse o icónico futurólogo Albert Robida ter teorizado e exposto aos seus contemporâneos o téléphonoscope, ou telefonoscópio, nas suas ilustrações do séc. XIX sobre o futuro e que hoje se traduz em aulas à distância, pela internet.

Dr. Filipe Froes

Conforme referiu, inteligente e lucidamente, a respeito desta pandemia, o Prof. Dr. Filipe Froes, reputadíssimo pneumologista (entre vários cargos, coordenador do gabinete de crise da Ordem dos Médicos), a Covid-19 talvez seja o desencadeador de que necessitávamos para colocar (finalmente) em uso corrente a tecnologia para o teleensino e para a telemedicina que, a partir de agora, deverão presumivelmente sofrer um dramático “boom” já há muito enunciado, mas nunca concretizado. Na mesma ótica construtiva e otimista, o Dr. Froes aponta ainda o contributo desta situação de emergência para a descoberta e desenvolvimento de novos fármacos, fruto das imensas experiências realizadas, que nos permitirão beneficiar em diversas áreas do conhecimento médico, em particular da pneumologia e infeciologia. Acrescenta ainda que a isto acresce o conhecimento logístico a nível de Estado, numa verdadeira “vacinação” preparatória para como o Governo e a sociedade deverão atuar em eventuais (e porventura ainda mais graves) futuras pandemias.


Desta terrível situação poderão advir, pois, inúmeros benefícios, sendo uma enorme janela de oportunidade de crescimento, se soubermos interpretar bem a situação e as próprias ações que tomámos (Elon Musk possivelmente acrescentaria ainda que a humanidade estará também mais preparada para uma “revolta” da Inteligência Artificial (IA) e outras calamidades que esperemos que não aconteçam!), fomentando a coesão estrutural e até humanitária das diversas sociedades. Para os céticos, enquanto obriga a estar em casa, esta coincidência dá que pensar. Para os crentes, é uma ação divina destinada não à exterminação da humanidade mas antes à retificação de comportamentos e atitudes. Para os restantes, será um mecanismo natural, quase que propositado, que visa a autodefesa do meio ambiente e o restabelecimento de padrões mais sustentáveis e que possibilitem a evolução.


Uma coisa é certa e unânime: tudo isto mete a grande maioria de nós em casa com excesso de um bem precioso e escasso, que é o tempo. E de sobra para pensarmos, pelo menos. O trabalho, esse, está a ser feito por nós, e depois disto estamos proibidos de nos darmos ao luxo de não lhe dar continuidade. A humanidade sairá mais forte.

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