• Patrícia Silva

Contagem Decrescente para o Fim

Atualizado: 24 de Jan de 2020

Créditos: Oficina da net

Cinco, quatro, três, dois, um….


Esta é a forma mundial, e quase convencionada, de festejar o início de um novo ano. Acompanhados de champanhe, assim como de diferentes superstições, o mundo dá as boas vindas ao novo ano perante desejos de amor, saúde, sorte e felicidade.


Contudo, em 1999, havia um desejo geral de que o ano “não virasse”. Esta vontade era justificada pelo rumor, a circular internacionalmente, de que quando o número um da emblemática contagem decrescente chegasse, o mundo iria colapsar.


Desta forma, no último dia do milénio, algumas pessoas substituíram o clima festivo da época, por pânico. As compras de aperitivos e alimentos para as ceias eram substituídas por compras de bens alimentares de sobrevivência, de forma a barricarem-se em casa, e o dinheiro das suas contas bancárias era previamente levantado na totalidade. Tudo isto devido ao que, em português, se traduz por “um mosquito”. Refiro-me ao bug 2000, também apelidado de “Bug do milénio” ou Y2K, e que se referia a um colapso dos sistemas informáticos.


Para o explicar, é necessário fazer uma analepse a 1960, o período da génese da computação. Nessa época, as economias mínimas de memória de um computador eram muito dispendiosas em termos financeiros e de espaço. De forma a solucionar o problema, as datas passaram a ser armazenadas em seis dígitos, ou seja, dois espaços para o dia, dois para o mês e dois para o ano, logo, dd/mm/aa. O que se apresentou benéfico até o ano de 1995, a partir do qual surgiu a preocupação da “virada do milénio”, onde 1999 passaria a 2000. Isto, em termos de sistema, resultaria numa mudança dos dígitos do ano para “00”, o que poderia ser interpretado pelo computador como “1900”, aos invés de “2000”.


As consequências, a partir daí, seriam catastróficas, visto que muitas entidades e instituições usavam, já nessa altura, computadores. Previa-se a queda de aviões, lançamento de material radioativo, ausência de energia elétrica e água, assim como roubos a cofres e cadeados dependentes de computadores e colapso de metros e comboios. Para além disso, os bancos entrariam em ruína, visto que os seus dados seriam destruídos e o dinheiro desapareceria do banco, devido ao cálculo de débitos e investimentos ser danificado. E, não menos preocupante, haveria falhas nos sistemas judiciários, o que poderia resultar numa libertação de reclusos.


Estes possíveis efeitos contribuíram para um cenário quase apocalíptico. Porém, o que para muitos era motivo de pânico e desespero, para outros era visto como descrença e gozo, e, consequentemente, uma passagem de ano normal.


Meios de comunicação de todo o mundo ajudavam a disseminar o terror e a expectativa, assim como muitas indústrias, em especial de segurança digital, apresentavam lucros nunca antes registados. Livros de receitas de sobrevivência, congressos e até mesmo vídeos de preparação para a grande noite eram lançados, aterrorizando ainda mais a população.


Visto que “prevenir é melhor que remediar”, desde 1996, os programas começaram a ser alterados para evitar este bug. Encontraram a linha de código do campo de “ano” e fizeram a alteração para que o computador lesse quatro posições e conseguisse, então, distinguir 1900 de 2000. Os gastos em todas estas alterações, por todo o mundo, foram de 600 bilhões de dólares. Porém, países como Coreia, Itália e Rússia não aderiram a esta atualização.


Todavia, quando 2000 se fez soar nas celebrações do ano novo, nada de dramático aconteceu. Alguns softwares foram desconfigurados, como agendas pessoais e painéis eletrónicos. Certos bancos e lojas sofreram instabilidades momentâneas, que demoraram poucas horas a serem resolvidas. E determinados programas não apresentavam corretamente o ano, como foi o caso do windows 3. Fora estes pequenos erros corrigidos com prontidão, nada se alterou.


Contudo, as mudanças nos sistemas ocorridas face ao bug apresentaram-se vantajosas, visto que levaram empresas a modernizar-se. Dois anos depois, com o 11 de setembro de 2001, o sistema financeiro e de transporte de poder da TELECOM foi destruído. Graças ao sistema backup, test scripts e planos de contingência desenvolvidos em 1999, a maioria conseguiu voltar à normalidade no prazo de um dia.



Créditos: Jornal Expresso

Um novo fim à vista


Apesar deste acontecimento ser visto, nos dias de hoje, com humor, há a previsão de um novo bug em 2038. Apelidado de “Bug do Milénio Unix”, Y2K38, Y2.038K ou S2G, este novo colapso vai incidir novamente no cálculo de datas. Todos os computadores que utilizem linguagem C, através da qual a data é calculada pelo número de segundos desde o dia 1 de janeiro de 1970, vão falir a 19 de janeiro de 2038, quando se atinge o seu número máximo de números positivos. A partir desse dia, o tempo é armazenado em números negativos, o que, na prática, leva os computadores a pensar que estão a 13 de dezembro de 1901, ou 1970.


A solução para este problema está em fazer um upgrade de todos os computadores ou processadores de 32 bits para 64. Contudo, as alterações, a serem feitas nos computadores, devem iniciar-se com alguns anos de antecedência, de forma a evitar a confusão gerada, à última da hora, em algumas organizações e entidades, em 1999.


Possivelmente mais instruídos que em 1999, há a esperança que o novo bug não seja novamente causador de pânico e terror na população. Aos meios de comunicação cabe o papel de informar, com objetividade, sobre a realidade e não alimentar, com recurso a rumores, o terror dos seus consumidores. Todavia, devido à impossibilidade de prever o futuro, fica somente a dúvida, repetir-se-á o cenário do século passado?

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