• Mafalda Pereira

As cores que pintam a vida de Guilherme Atanásio

Atualizado: 24 de Mai de 2020

Quando, numa tarde de verão de há quase 2 anos, descobriu que gostava de pintar, escolheu investir na arte. Hoje, autocaracteriza-se como “pintor nos tempos livres” e afirma que, se pudesse viver das suas telas, seria perfeito. 


Guilherme Atanásio, de 21 anos e natural de Sintra, é estudante de Engenharia Eletrotécnica e de Computadores no Instituto Superior Técnico. É com uma mão dada à engenharia e a outra à arte que leva a sua vida. Desde agosto de 2019 que a Holanda é a sua casa. Na verdade, gostou tanto do país, que acabou por prolongar a sua estadia - inicialmente, tencionava ficar em Erasmus durante um semestre, mas a experiência acabou por se estender. 


À conversa com a Sapiens Digitalis, Guilherme falou-nos um pouco sobre o seu projeto, Atanásio Art.

De onde surgiu o interesse pela arte?


O meu pai é arquiteto e desde pequeno que me leva a ver edifícios e exposições. Ele gosta muito de ir a museus e eu sempre frequentei muito esses espaços. Sempre fui uma pessoa ligada à Matemática e, sinceramente, nunca me imaginei a fazer algo que estivesse ligado às artes. 

Mas, no verão, no dia 2 de julho de 2018 - por acaso lembro-me do dia - quando estava em casa encontrei guaches e pensei “porque não experimentar pintar?”. Peguei numa folha de papel, comecei a pintar e, sinceramente, não correu muito bem, mas gostei imenso da sensação e do som do pincel na folha. Mais tarde, decidi comprar umas telas e começar a pintar. 

Nessa altura um rapaz falou-me de um pintor chamado Bob Ross que faz vídeos no YouTube - ele é um anjo na terra, é muito calmo. Decidi seguir um tutorial dele e pintar alguma coisa e gostei muito. Os quadros dele são a óleo e mais realistas (ele pinta paisagens) e, apesar de reconhecer que são pinturas impressionantes, quando olho para uma pintura abstrata a emoção é diferente.Comecei a seguir caminhos mais abstratos, mas ainda tenho muito para aprender e nunca se sabe se posso ou não voltar a uma onda mais realista.


Porque decidiste batizar este projeto como Atanásio Art?


O meu apelido é Atanásio, é um bocado óbvio aí. Eu queria escolher “Artanásio", só que já havia uma conta de Instagram com esse nome. Mandei mensagem à conta, porque não tinha atividade, para saber se podiam, por acaso, mudar o nome, para o poder usar, mas nunca tive resposta. Então tive de escolher o Atanásio Art.


Quando começaste a fazer quadros de maneira mais séria?


Quando começaste a receber mais reconhecimento pelas tuas pinturas? Que feedback tens tido?


No início, fazia os meus quadros e mandava fotografias aos meus amigos. A certa altura, eles incentivaram-me a criar um Instagram, para ter um sítio onde pudesse mostrar a mais pessoas as minhas criações. Na verdade, não queria muito criar a conta, mas acabei por fazê-lo. Já tinha 25 ou 30 pinturas e, então, publiquei fotos de todas e foi aí que comecei a receber mais pessoal.

Os que me conheciam, mas não sabiam que eu pintava, começaram a seguir o trabalho e a dizer-me que gostavam das pinturas, mas é claro que há sempre quem não goste. 

Depois, houve um dia em que fiz um podcast com um amigo meu, o Miguel Luz, e aí recebi mais reconhecimento e consegui chegar a mais pessoas.


Vês a arte como futuro ou apenas como um hobbie?


Gostava de poder ver como um futuro, até. Não é que não veja, mas neste momento olho para a arte de forma mais descontraída. Mas, sinceramente, gostava muito de investir nisto e continuar a fazer disto a minha vida. Se desse para viver da arte seria perfeito, porque a sensação que se tem ao pintar é muito boa. Já pensei nisto e acho que pode perder um bocado o gosto do processo de pintar ao ficar mais sério. Mas estou em engenharia e, portanto, tenho sempre essa vertente disponível.


A partir do momento em que pegas nas tintas e nos pincéis, como se desenrola a tua criatividade?


Pode acontecer de duas formas: completamente random ou um bocadinho pensado. O que eu costumo fazer é começar por escolher uma cor que goste ou que estou a sentir no momento. Quando vou à praia, nesse dia, no final, se for pintar vou utilizar mais tons azuis, ou cores mais vivas. Se for para a floresta, costumo ir, porque vivo perto da serra de Sintra, vou pintar em tons mais verdes. O meu dia-a-dia influencia as cores e as coisas que eu pinto.


Guilherme Atanásio a pintar o quadro "sea horse"


Tens alguma inspiração para os teus processos artísticos?


Eu gosto muito de um rapaz, chamado Callen Schaub , ele é do Canadá. Ele faz umas pinturas com um pêndulo e mete os quadros a rodar, o que dá efeitos incríveis. Gosto muito do trabalho dele, porque ele não pensa muito antes de pintar - o processo é o que mais importa nos quadros dele, não tanto o resultado final.

Ele faz vídeos e mostra todo o processo e, às vezes, o quadro demora pouquíssimo tempo a ser pintado, mas nota-se que está cheio de conteúdo e isso é incrível para mim. Esse rapaz inspira-me imenso. 

Também tenho outros senhores mais antigos, como o Salvador Dalí e o Van Gogh. Gosto muito das cores dos quadros do Van Gogh, é algo que me impressiona imenso. Por outro lado, adoro as formas que o Dalí usa. Depois, claro, gosto muito de Picasso, é impossível não gostar, mas identifico-me mais com os outros dois.


Como foi ir viver para a Holanda?


Sentes que esta mudança de país se refletiu nos teus quadros?


Não sei, porque eu vim para aqui e perdi o meu estúdio, onde podia deixar a pintura para o dia seguinte. E isso é fulcral para mim. Chateia-me, sinceramente, estar a limpar e arrumar o meu espaço de criatividade, porque parece que o processo se perde de um dia para o outro.


Se pudesses escolher uma das tuas telas, qual escolherias e porquê?


Escolheria uma que tenho em minha casa, em Sintra, que se chama The Calyx - é vermelha, e tem azul turquesa. É a minha “minha pintura” preferida, primeiro, porque é gigante e eu adoro pinturas grandes e, depois, porque, para mim, é perfeita, simétrica e super equilibrada. Adoro o contraste do vermelho com o azul.


The Calyx


Como é que escolhes que nome dar aos teus quadros?


É um processo muito simples: eu olho e penso: “o que é que isto parece?”. Pode ser um bocado de principiante, não sei. Tem um pouco a ver com a forma como me sinto naquele momento e com o que estou a ver. 

E isso é uma coisa que gosto na arte abstrata - o que vejo hoje pode não ser o mesmo no dia seguinte. Muitas vezes, vou ver a tela e já me parece uma coisa diferente. Mas acho que o nome acaba por ser só um attachment. No fundo, o que tu vês é o que tu vês. 


Como seria uma tela sobre a tua vida?


Eu acho que seria uma tela um bocado rasgada, porque o que eu mais gosto nas pinturas são os detalhes e as imperfeições. Quando vou a um museu, procuro sempre as imperfeições na tela, gosto desses pequenos detalhes. 

Acho que uma tela da minha vida estaria cheia de contrastes e cores, porque eu estou sempre à procura de coisas novas, que não têm nada a ver umas com as outras. Ao mesmo tempo, teria pequenos detalhes: um bocadinho rasgada numas sítios, ou não pintada noutros, por coisas que ainda tenho por descobrir.

Mas teria cores muito vibrantes, porque eu sou uma pessoa que gosta sempre de estar a fazer coisas - não gosto de estar parado. Sinceramente acho seria assim: uma tela com cores de muito contraste, muita confusão, mas uma confusão harmoniosa. Seria uma tela muito grande, com uma forma circular e com muito vermelho e laranja.


Que mensagem final queres deixar?


Posso só dizer que deviam todos experimentar pintar, nem que seja só uma vez, porque é mesmo uma grande sensação. Não se deve sequer julgar o que estamos a fazer, é só pintar e ir com o flow e ver onde é que se vai chegar. É algo muito bom.


Algumas telas de Guilherme Atanásio

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