• Francisco Martins

Arte de ser arte

Atualizado: 21 de Dez de 2019


Quase sem querer, estava numa sessão noturna do Festival Caminhos do Cinema Português, quando vejo projetado numa tela de cinema o filme Les Extraordinaires Mésaventures de la Jeune Fille de Pierre (As Extraordinárias Desventuras da Jovem Menina de Pedra). A história não é muito densa, no entanto, suscitou-me uma reflexão sobre a arte e a atitude do ser humano perante ela.


Cai a noite no Louvre e as obras ganham vida. A “estátua” de uma rapariga com a juventude esculpida nas curvas do seu rosto acompanha-nos como personagem principal. A sua rebeldia e desejo de conhecer o que há ao seu redor levam-na a fugir do museu, enfrentando os perigos do mundo exterior. Vitória de Samotrácia, sempre mais conservadora e temerosa face ao que acontecia lá fora, também se personaliza nesta história. A estátua consegue concretizar a fuga aos limites que lhe estão impostos pelas paredes do museu. A vida real atira-lhe com uma intensa dose de crueldade.


Se a adolescência da personagem principal traz consigo inquietações, problemas e questões, a arte parece também não fugir a isso. Como percebemos na perspetiva que nos é apresentada, a arte também tem um lado humano. Herdado do seu autor ou não. Mas será que a arte tem mesmo vida ou é este apenas um devaneio insignificante do realizador Gabriel Abrantes? Foi a partir desta questão que comecei a minha interpretação do filme. O artista é muito mais parte da obra do que pode parecer. E se, ao criarmos uma obra de arte, estivéssemos também a criar uma personalidade?


Uma das cenas que mais me marcou foi quando, ao fugir do museu, a “rapariga” encontra uma manifestação. Não é o encontro em si que é especial, mas há um momento em que a estátua andante fica à frente da manifestação e confronta a polícia que tentava controlar os manifestantes. Será que dar a cara por causas e ideologias não é uma das funções da arte? A arte é uma arma para vincarmos aquilo que defendemos. No fundo, o meio para atingir um fim. O fim é sermos nós próprios, lutando por aquilo em que acreditamos. Consegui, naquela cena, ver perfeitamente a ideia que a obra é um reflexo de nós e, acima de tudo, daquilo que pensamos.


E terá a obra sentimentos? Aquela menina, pelo menos, tinha. Fugia com medo e exaltava-se com raiva. Sentia dor quando lhe batiam. Não era só a dor física, mas a dor de querer ser o que não era. A arte também sai da caixa. A personalização da jovem menina fica vincada com o seu desejo de brincar e de se integrar. O mundo pode é não a receber como a sua ingenuidade esperava.


As questões sobre a arte nunca serão unânimes e levam sempre a grandes discussões. A arte é, em grande parte, reflexo do artista. A arte é uma forma de luta. A arte sofre. A arte transcende-se.




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