• Catarina Magalhães

Académica: O Clube dos Estudantes

Uma Reportagem por Bruno Costa e Catarina Magalhães


A cidade da tríplice lusitana, fado, saudade e estudantes tem marcada, nas suas ruas, a história dos milhares de jovens que construíram e constroem a Academia de Coimbra. Contudo, não é só de estudantes e da Universidade que sobrevive a cidade dos amores. No campo desportivo, a famosa Académica é o expoente máximo.


A Briosa, apelido carinhosamente atribuído à equipa, casou o seu percurso com o dos estudantes. “A Académica e a cidade de Coimbra estão sempre eternamente ligadas”, aponta Diogo Ribeiro, jogador de 28 anos do plantel principal e aluno na Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física (FCDEF). Nas décadas de 50, 60 e 70, a identidade da Briosa era marcada pelos ‘jogadores-estudantes’. Pedro Roxo, atual presidente da direção, sublinha que a “Académica é o clube dos estudantes” e que nunca se pretendeu perder essa ligação.

Na época de 66/67, o hino “Briosa, se jogasses no céu, lá iria” ressoou mais alto. A equipa da cidade, em que se formaram nomes como Eça de Queirós ou Egas Moniz, conquistou o maior feito da história do futebol conimbricense, ao terminar em segundo lugar, sendo apenas batida pelo Benfica de Eusébio. Uma época dourada para o futebol português e de glória para os estudantes que compunham o plantel da Briosa. Procurava-se que os atletas vingassem no campo e fora dele.

“O profissionalismo está cada vez mais enraizado no futebol”, refere Pedro Roxo. A Académica procura “manter bem viva a tradição” de ter no plantel jogadores que conjuguem a atividade profissional com o objetivo de “prosseguirem com a sua vida académica”. João Traquina, jogador de 30 anos e aluno da FCDEF, acrescenta que “com um pouco de esforço e dedicação, tudo se consegue”. O colega de equipa, Diogo Ribeiro, afirma que jogar e estudar ao mesmo tempo funciona como um estímulo, pois leva-o “a ser melhor todos os dias: tanto a nível físico, nos treinos, como a nível intelectual, na faculdade”.

Um laço anti-regime


O clube de Coimbra manteve-se ligado aos movimentos estudantis, que marcaram e ainda caracterizam a Academia. A temporada de 68/69 é relembrada pelo vínculo forte ao movimento estudantil contra o regime. Aquando da inauguração de um edifício pelo Presidente Américo Tomás, foi negada a palavra a Alberto Martins, presidente da Academia de Coimbra. O estudante foi, posteriormente, preso pelas forças policiais do regime – Polícia Internacional e de Defesa do Estado, mais conhecida por PIDE.


Créditos: zerozero.pt

A caminhada do desporto na cidade do amor de Pedro e de Inês (e do amor à Briosa) cruza-se com reivindicações e ações dos estudantes, que sempre procuraram erguer a sua voz. Em 1969, a Académica deslocou-se à capital para defrontar o Sporting na meia-final da Taça de Portugal. Os estudantes apresentaram-se em campo vestidos de branco e enfeitados com uma braçadeira negra – sinal de luto, pela liberdade que se julgava perdida.


No dia da grande final, contra o clube da mesma cidade, o Benfica, a Briosa jogava no relvado e nas bancadas a luta estudantil contra o regime continuava, com cartazes que manifestavam o descontentamento. O dia que ficaria conhecido pelo maior comício contra o regime. A Briosa só saiu derrotada no relvado. A grande vitória deu-se com a substituição de José Hermano Saraiva por Veiga Simão, na pasta da Educação, nomeando Gouveia Monteiro para reitor. Na época, os media não deram destaque noticioso à conquista.


Vencer: dentro e fora das quatro linhas


Diogo e Traquina são dois dos 15 jogadores, entre o plantel principal e os plantéis dos sub-23 e o dos sub-19, que se encontram a frequentar a Universidade. Contudo, a formação académica do plantel não se reduz à área do desporto. Há estudantes na área da Fisioterapia, como o lateral esquerdo Joel Ferreira e o central Hugo Ribeiro, Marketing e Publicidade, o lateral Mike Moura, Economia, o capitão Ricardo Dias, Turismo, o guarda-redes Júlio Neiva, entre outros. Hugo Almeida, um antigo internacional pela Seleção Nacional, encontra-se a completar o 12º ano de escolaridade.


O presidente afirma que uma das preocupações foi “nomear como capitão de equipa dos sub-23 um jogador que estuda atualmente na Universidade, como é o caso do Diogo Ribeiro”. Para os jogadores estrangeiros, o clube mantém uma parceria com um centro de estudos de Coimbra, “a StudyAcademy”, que facilita a aprendizagem da língua portuguesa e futura integração dos atletas.


O jogador de 28 anos assinala que “não existem desculpas para quem quer atingir o sucesso”. Por vezes, conciliar os estudos e a exigência dos treinos pode não ser compatível. Pedro Roxo reforça a inexistência de um indicador que determine o tempo que cada jogador demora a tirar o curso, pois “cada caso é um caso”. Traquina assinala que se trata de uma vantagem “os professores serem bastante compreensivos e facilitarem no que podem”.


O presidente adianta que são “vários os casos de sucesso”. Isto deve-se à dedicação dos atletas e à sua “consciência, relativamente à importância de continuarem os estudos”. Além disso, a Academia possui também uma sala de estudos, que fomenta e dá oportunidade aos jogadores de conjugar os horários. Diogo Ribeiro assinala que se trata de “traçar objetivos e lutarmos por eles”.


Em 15/16, a Académica desceu da I para a II Divisão. Segundo o jogador de 30 anos, “a atual direção do clube tem feito um excelente trabalho, no sentido de voltar a aproximar a cidade do clube”. Com o desaire da descida poderia esperar-se uma diminuição do apoio e a afluência ao estádio. O presidente aponta que “existe uma relação de grande proximidade com a Academia”. Um dos incentivos do clube, para manter essa ligação, é garantir a gratuidade para quem se apresentar trajado. Acrescenta que é “com satisfação” que vê que “são cada vez mais os estudantes nas bancadas”.


O espírito de 69 ainda paira nos balneários da equipa de 2019. Para Traquina, “o ambiente era igual ao atual, somente teria que jogar com umas caneleiras maiores (risos)”. Para outros, como Diogo, “são épocas diferentes”. Tendo nascido na cidade que é a casa da Briosa, sempre envolvido no espírito academista, e adianta que se trata de “um privilégio jogar numa equipa de estudantes”.


João Maló, antigo guarda-redes e treinador da Académica, reiterou que “o principal é formar homens válidos para a sociedade. Ganhar, se possível, mas vencer sempre nos estudos. Esse é o lema”. Em pleno século XXI, apesar da crescente profissionalização, o clube dos estudantes mantém eterna essa ligação.

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