• Catarina Magalhães

A velhice e os laços que a (des)unem

A época do Natal e do Ano Novo são repletas de novas promessas, novos desejos e velhos hábitos. Infelizmente, é também a altura em que muitos idosos são abandonados pelas suas famílias, quer seja nas suas casas - que deixaram de ser o seu Lar - ou até nos hospitais. Como tal, é urgente a prenda que muitos deles esperam: o despertar para a velhice.


A Organização das Nações Unidas declarou o período de 1975 a 2025 como a Era do Envelhecimento. Tal nomenclatura resulta do aumento da esperança média de vida de cada cidadão, sucesso alcançado através dos sistemas de saúde, inovações tecnológicas, e acesso (supostamente) generalizado a melhor qualidade de vida. Contudo, apesar do ditado popular referir que “a idade é um posto”, os crescentes níveis de abandono são uma prova do desrespeito a esse pedestal. A meu ver, a ignorância e o desconhecimento pelo processo do envelhecimento, assim como as suas consequências, são as principais razões.

“Nem a juventude sabe o que pode, nem a velhice pode o que sabe” vociferava Saramago, o nobel lusitano da literatura. A apreensão que muitos jovens sentem assenta na crença de que a ‘idade é só um número’, quando, na verdade, ultrapassa essa dimensão numérica e tecnicista. Nas mãos da juventude está o poder de alcançar, cada vez mais tarde a velhice, sendo que se trata, acima de tudo, de um estado de espírito.


Apesar de António Variações cantar que “o corpo é que paga”, é o coração que define a maneira de estar e de ser de alguém. E é ele que paga as dívidas da solidão - à qual muitos ficam condenados. Além disso, a realidade da desertificação no interior do nosso país é um dos sintomas do abandono ao que é velho. Um resultado da ânsia da descoberta. Esquecem-se que, porém, as redescobertas são igualmente frutíferas.


Os programas promovidos por organizações, associações e universidades, que incentivam os jovens a viverem com senhorios idosos é uma das ferramentas que visam colmatar a falha. Uma falha do afeto que, muitas vezes, a própria família se esquece de retribuir. Assim, a negligência é um ato extremamente condenável e exige medidas mais interventivas e efetivas, por parte dos nossos governantes. O chumbo da criminalização ao abandono dos idosos, em 2018, é uma prova de que ainda há muito a ser feito.



As pessoas que cometem estes atos ignoram que, por vezes, não só no Natal, mas ao longo do ano todo, há quem desejaria poder dar o conforto e amor aos seus avós, tios, que já partiram. São os dois lados da moeda: os que negam o amor e aqueles a quem o amor é negado. Além de serem exemplos de sabedoria, os mais velhos são os primeiros a darem-nos colo e o que significa Ser Humano.


Assim, como as rugas que percorrem os nossos corpos, também o laço da união devia percorrer o nosso interior. É urgente esvaziar as camas de hospitais em que são abandonados muitos idosos que precisam de quem lhes dê colo. Afinal de contas, como assinala Victor Hugo, autor d'Os Miseráveis, “quarenta anos é velhice para a juventude e cinquenta anos é juventude para a velhice”.


Fotografias por Catarina Magalhães

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