• Paulo Cardoso

A reflexão por estes dias

Estou de quarentena. Tentei, no princípio, pensar muito no que ia fazer para completar os meus dias de telescola. Hoje, visto o pijama. Vou buscar o livro que ando a ler, para continuá-lo nas horas mais tranquilas do meu dia, talvez até adormecer.


Passei pelas prateleiras cheias da sala, do escritório e do quarto. Se já li estes livros todos? Não. Quem me faz esta pergunta enervante é a minha mãe. Respondo que ando à procura… passo as prateleiras e o olhar detém-se no pó que cobre a lombada de um livro que li há algum tempo. Ensaio sobre a Cegueira. Então, atraído magneticamente pelo nome do autor, o olhar salta para outro título que me deixou tão ou mais curioso enquanto comprava o primeiro.


Na hora do pedido, acompanhei vagamente o conteúdo do que haveria de ler quando chegasse. E é assim que se desencadeia um processo de rutura violenta entre o poder político e o povo, cujos interesses aquele deve supostamente servir e não afrontar. E porque ler sobre política e corrupção é sempre atual, este ato de visão pela sinopse deu-me uma boa carga de vontade para a leitura.


O livro chegou em dois dias. Seguro. Nessa noite, enquanto pensava em tudo o que tinha feito, lembrei-me que ainda podia começar a viajar. No entanto, quando olhava para a pilha de documentos e bibliografia da universidade, parecia que, afinal, a vontade de ler se dissipava. Ao mesmo tempo, abstraí-me da situação e sabia que era importante focar-me naquilo que o livro me queria dizer. Serviria para transportar a minha atenção para vírus mais perigosos do que o covid. Injúria. Egoísmo. Corrupção. Suborno. Ensaio sobre a Lucidez.


O livro tornou-se uma grande viagem. Quando dei por mim estava viciado. Posso afirmar isso com segurança. O livro é uma porta aberta para acompanhar os bastidores de estratégias políticas e governativas de qualquer país. Uma descrição típica de Saramago que nos abre uma espécie de porta para o vivemos. O ritmo frenético na leitura permitiu-me uma noite em branco e o desenvolvimento de reflexões sobre o cenário político-social atual.


No quarto, onde ninguém me incomoda durante a noite, aventurei-me nesta e noutras leituras. A pandemia e a reclusão ao domicílio trouxeram-me mais apetite pela literatura. Os próximos já vêm a caminho. Eles, os escritores, dizem-nos as mentiras em que não devemos acreditar.


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