A oitava praga

Opinião por Simão Moura


Têm sido umas semanas interessantes do outro lado do Atlântico, mas o serão de 29 de setembro afirma-se entre calamidades. Talvez o mundo vá mesmo acabar em 2020. Sobe a forma do debate entre Joe Biden e Donald Trump, a oitava praga d’O Senhor vai sem dúvida deixar marcas. E se o planeta não explodir entretanto, de preferência antes de 3 de novembro, vamos todos desejar que tivesse. Os dias que se seguiram também não desapontaram. A Casa Branca recebeu uma encomenda que já deu que falar. Temos muito para cobrir.


Voltando ao debate… foi triste. Mas isso já se esperava de um evento cujo programa inclui Trump… ou política americana em geral. A tensão no ar era palpável mesmo antes dos concorrentes se apresentarem. Sentado à frente dos dois candidatos, Chris Wallace, o moderador, parecia uma criança a ser castigada pelos avós. Em retrospectiva, demonstrou a mesma incompetência de uma. Estou surpreendido que Donald Trump não sacou de uma pistola de água ou atirou aviões de papel a Biden. Estou convencido que se teria safado com isso.


Enfim, surgiram vários temas importantes: o racismo, a covid-19, a economia e a relação atribulada do filho de Joe Biden com cocaína. Todos relevantes em igual medida. Ironicamente, não tenho muito a dizer sobre o candidato democrata. Certamente não é nenhum santo, talvez lhe falte iniciativa para governar uma nação tão dividida, mas portou-se bem… dentro dos possíveis.


Do outro lado “Donald Stallone” nunca esteve melhor. A sua agressividade foi tão patética como eficaz. A custo da nossa paciência, sacrificou a possibilidade de dizer algo de jeito para evitar que Biden o fizesse. Um uppercut aqui e ali, um gancho de esquerda, um de direita e a luta estava vencida. De volta à terra, ainda que Trump tenha toda a falsa combatividade de um lutador de wrestling, e cerca do dobro de maquilhagem, acho que a primeira partida foi para os democratas. O momento que se destacou, no entanto, foi quando Trump conseguiu arranjar maneira de se escapar a condenar organizações racistas que o apoiam. Posto sobre pressão, desviou a culpa para a Antifa. As organizações acima mencionadas, como os Proud Boys, foram rápidas a mostrar o seu agrado nas redes sociais e até os apoiantes mais dedicados do partido republicano perderam uma batida do coração.


Não que a referência sexual que o presidente conseguiu esgueirar na conversa tenha causado menos transtorno a qualquer um com meio palmo de testa. Este debate teria sido mil vezes mais interessante se tivéssemos uma câmara a apontar para a cara de Melania. Claro que a covid-19 deu que falar. E tal como um bebê de um ano mostra a fralda suja à educadora, Trump estava orgulhoso de ter uma máscara consigo. Porquê? Não sei, para fazer de enfeite presumo eu. Voltaremos a tocar neste assunto. Não sei se Joe Biden teve razão em chamar “palhaço” a Donald, mas que fazia uma linda árvore de natal… uma luz aqui e ali, já tem o brilho, um fato verde e meia dúzia de máscaras penduradas de cima a baixo. O irónico é que provavelmente teriam mais utilidade assim do que estão a ter na Casa Branca aparentemente.


Dois dias depois do debate, o Karma pregou uma das suas. Presumivelmente, a bordo do navio Hope Hicks, a covid-19 chegou a bom porto, e como qualquer turista que se preze, não tardou a dar a volta ao bilhar grande. Rapidamente saltou de Hicks para Trump e pelo caminho visitou mais alguns marcos locais. Desconhece-se exatamente onde a diretora de comunicações da Casa Branca foi infetada, ainda que meia dúzia de palermas ousem sugerir os ajuntamentos organizados pela campanha republicana.


Imediatamente se tratou de chamar o UBER mais chique do mundo, digno do presidente: um helicóptero. Trump gozou de uma breve estadia no hospital militar Walter Reed, onde lhe foi administrado um tratamento experimental. Não chegou a passar meia dúzia de dias internado até decidir sair. Meteu-se num carro e foi dar voltinhas. Parecia o papa. Tenho pena é do pobre coitado do chaffeur. Aliás, houve mesmo queixas anónimas dos serviços de segurança.


Lá acabou por voltar à Casa Branca, uma cena brilhantemente coreografada para ter o maior efeito televisivo possível. Máscara fora, claro. E é isto. O mundo de pernas para o ar e o líder da nação em melhor posição para o salvar joga aos dados com o destino. “Não tenham medo deste vírus”… pois, não teríamos se tivéssemos acesso ao tratamento que o mui honrado dirigente teve.


Em conclusão… estava-se mesmo a ver. O Karma finalmente apanhou a família Trump e, se não têm cuidado, o corona também vai não tarda muito, o que seria assustador. E ainda que o homem continue a fazer das suas, como recusar as sugestões de fazer o próximo debate virtualmente devido à sua condição, há que ter algum respeito pela sua teimosia. Face a uma doença potencialmente mortal, o tipo continua a bater na mesma tecla.


Pronto. É isto. Agora, no final, e perto de uma overdose de antidepressivos, aviso-vos que estas semanas serão lembradas durante muito tempo. Do debate mais metodicamente ridículo da história da democracia ao plot twist melhor orquestrado pelo amigo destino, tem sido interessante assistir. O mundo sofre, a América arde (não literalmente… para já), mas a vida continua. Não me atrevo a tentar adivinhar o que o futuro encerra.


Quer Deus planeie acabar com o mundo lentamente com o covid-19, de frustração com a renovação da presidência de Trump, ou uma catástrofe bíblica antes de que esta última seja possível (uma opção misericordiosa em comparação), cá estaremos para vos manter informados.

0 comentário
Contacto
  • Facebook
  • Instagram
  • Ícone cinza LinkedIn
  • Grey Twitter Ícone
This site was designed with the
.com
website builder. Create your website today.
Start Now