A Mente sente e o Corpo reage: o dia-a-dia de quem vive com ansiedade

Opinião por Cátia Beato


Nos últimos dias, pelo menos de que me recorde, tive o gosto de ouvir a indelicadeza de alguém que nunca me conheceu, dizer-me, que o meu riso era forçado. Ora, será que o meu riso é que é forçado, ou será que, quando me encontro em situações que me causam grande ansiedade e stress, acabo por me rir, para esconder a frustração? São coisas diferentes. E, são estes pequenos momentos que me dão mais a certeza de que, por mais que estes temas estejam a ser abordados na atualidade, a verdade é que pouco ainda se compreende sobre o assunto.


Os Manuais MSD, conhecidos nos Estados Unidos e no Canadá como os Manuais Merck, são um dos pontos de referência sobre informação médica em todo o mundo e têm como regra “garantir a exatidão das informações médicas”, desde o seu diagnóstico como ao tratamento. Ao nos depararmos com a secção sobre a ansiedade e os seus transtornos, indicam-nos que a ansiedade é “um estado emocional perturbador e desconfortável de nervosismo e preocupação”, e que, “é muitas vezes acompanhada por alterações físicas e comportamentos similares àqueles causados pelo medo”. Essa alteração física é, no meu caso, o riso.


Uso a gargalhada de forma a lidar com o medo que tenho em confrontar aquela situação naquele momento, ou pela antecipação do acontecimento. Porém, o que desconhecem são os tremeliques em ambas as mãos, os suores frios, os arrepios que me percorrem todo o corpo, o bater do coração que se ouve em alta-voz, a falta de apetite, as insónias e as dores de estômago que me fazem correr para a casa-de-banho. São todos sintomas, que eu e outros tantos sofrem, mas em que não encontro o devido destaque na informação que recebo. Talvez, posso alegar, que não encontro sequer referida. Assumirmos a ansiedade como algo mental e que não se expõe através do corpo é falso. Todos nós experienciamos a ansiedade de forma diferente, pelo que não existe uma equação homóloga para a identificar.


Por não se falar sobre a parte física da ansiedade, muitos terminam por nunca reconhecer o problema e, por isso mesmo, não sentem a necessidade de recorrer a ajuda profissional e acabam por ter de conviver com isto sem nunca saber como “aliviar a dor”. Crescemos com a ideia de que esta é a reação normal do nosso corpo nestas situações, e que apenas temos de aceitar que isto nos acontece. Ou, até mesmo, como podemos nunca vir a associar estes sintomas a ansiedade, tratamo-la de forma errada com a toma de diferentes medicamentos.


Não é impossível, mas é muito difícil saber lidar com a ansiedade. Além da nossa saúde mental ficar comprometida, com ela vai também o desgaste físico e os danos colaterais às nossas relações pessoais e profissionais. Quando me encontro em situações que me causam grande ansiedade, tanto posso estagnar no tempo e no espaço, o que me leva ao sentimento de “derrota”, como me pode conduzir a um tal grau de histerismo que me faz perder o controlo, a calma e o relaxamento, e que depois se projeta em forma de gargalhadas. Com isto quero dizer que, além de afetar todos de maneira diferente, também pode variar os seus efeitos - em mim - dependendo da situação que me apoquenta.


Já são vários os anos que levo em terapia e ainda não tenho uma fórmula milagrosa que me livre deste problema, mas aprendi, sim, novas formas de o combater.


Exercícios de respiração – apertas as mãos, susténs a respiração enquanto contas até dez e expiras – durante alguns minutos fazem com que o sangue chegue ao cérebro e que concentremos a nossa energia nas mãos e na respiração, o que irá fazer com que te relaxes mais facilmente.


A descatastrofização – que palavra difícil de pronunciar – é uma técnica terapêutica frequentemente utilizada para que as pessoas aprendam a avaliar a veracidade das suas crenças, ou seja, para desconstruir o pensamento de forma que a pessoa não se autodestrua. É um bom exercício para se fazer quando algo não acontece como nós esperamos ou quando alguém age para nós de uma forma diferente daquela que nós agimos para ela. Quando ainda não sabemos fazer uma descatastrofização mental é bom usar um papel para apontar tudo. Vejam isso como uma espécie de diário, mas em vez de apontarem o que fizeram no dia, tentam perceber o que vos fez irritados naquela situação.


Porém, o que tem resultado mais na minha evolução foi a minha mudança no ‘mindset’. A partir do momento em que me comecei a concentrar em me agradar a mim e não aos outros, a minha vida começou a entrar nos eixos. Está como, onde, quando e com quem tu queres e onde te sentes bem. A vida vai parecer encaminhar-se depois desse momento.


Estas são as minhas três maneiras de saber lidar com a minha ansiedade, mas sei que existem muitas mais que ainda não aprendi. Cada um terá as suas maneiras e lidará com a ansiedade da maneira mais confortável e melhor para si. Porém, estes são alguns conselhos que dou a quem ler este texto e sentir o mesmo que eu.


A mente sente e o corpo reage. A isto nós não devemos fechar os olhos e esperar que o tempo resolva. Mas não leves isto como um guia, mas sim como umas pequenas dicas, pois, tal como os Manuais MSD referem, “o leitor não deve desconsiderar aconselhamento médico nem adiar a busca por aconselhamento médico devido a alguma informação encontrada neste site”


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