• Catarina Magalhães

A (in)segurança de ser

Pé ante pé, de mansinho, com cigarro na mão e aroma a café, eles caminham ao nosso lado. Muitas vezes, olham em redor, alarmados ao menor sibilar das folhas no chão. Com o coração a bater, como se fosse uma orquestra, avançam, inseguros de cada passo que investem.


O parágrafo anterior ilustra, muito sucintamente, o dia a dia (ou segundo a segundo?) de uma pessoa com ansiedade. A luta, que é muito mais interior do que visível, é ignorada pelos que não a sentem. Mais insensíveis ainda os que não a veem.


O ato de transpor a entrada de uma porta – mais intimamente conhecida como o “abandono” da segurança – pode despertar todos os alarmes físicos e psicológicos de um ser humano. A desvalorização desses mesmos sintomas é paradoxal, uma vez que leva a que a própria pessoa os ignore. Contudo, essa ignorância pode ter o efeito contrário, ou seja, o exacerbar dos sintomas.

Fonte: arte agora


Freud referiu que “quando a dor de não estar a viver for superior ao medo da mudança, a pessoa muda”. Assim, a psicologia freudiana sugere a catarse do aborrecimento como a força motriz para a mudança. Mas… e se a ansiedade for maior do que o medo?



Depois da dose de cafeína matinal, o turbilhão de pensamentos é semelhante a uma epopeia do sentir. Uma epopeia que é muitas vezes confundida como sinónimo de stress, mas que, como Camões, vai além disso. A ansiedade provoca uma distorção da realidade, como se a pessoa vivesse, efetivamente, num dos mundos criados por Tolkien ou Lewis. Ou, ainda, uma espécie de obra de ficção científica – que de ficção não tem nada.


Doença obsessiva compulsiva, stress prós-traumático ou pânico são algumas das manifestações ou consequências principais desta emoção. Uma emoção que, como tantas outras, é desvalorizada pelo outro e pelo próprio.


Com uma perceção do mundo ainda mais filtrada e complexa – do que a própria realidade já o é – muitos ao nosso lado fumam o seu cigarro, com os dedos amarelecidos da nicotina. Tal como as cinzas que ficam, também o próprio se desintegra, sem que as pessoas à sua volta se apercebam. A ansiedade, apesar de uma distorção, não deixa de ser uma realidade. Ou a (Ir)realidade para alguns. É urgente que a sociedade acorde, com a sua dose q.b. de cafeína, para este monstro do século XXI.


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