• Paulo Cardoso

A fotografia como caminho para a vida

Atualizado: 14 de Fev de 2020


Fotografia gentilmente cedida por Carlos Rio

“As pessoas não têm noção do que custa fazer uma fotografia. Como agora têm um telemóvel no bolso pensam que fazem fotografias de qualquer coisa.” Quem afirma é Carlos Rio, fotógrafo de natureza e vida selvagem que pretende “Dar a Conhecer para Preservar”. Oriundo de Esposende, com 55 anos, deixou o seu emprego de formador na área de informática, para se dedicar por inteiro ao registo da natureza. Em entrevista à Sapiens Digitalis, acusa a mão humana de entrar onde não devia. E lembra que a profissão de fotógrafo exige muito trabalho até conseguir chegar a ser lucrativa.



Quando é que teve o primeiro contacto com a fotografia?


Há cerca de quinze anos, porque comecei a perceber que, na área do Estuário do Cávado, na zona onde vivo, havia mais espécies de aves do que gaivotas. Portanto, comecei a fotografar, uma vez que achei necessário transmitir isso às pessoas e foi a partir daí que comecei a interessar-me pela fotografia de Natureza.


Qual foi a razão para escolher a fotografia como profissão?


Foi perceber que só como hobby não conseguia alcançar os meus objetivos. É evidente que, enquanto profissional, preciso de ganhar dinheiro e, portanto, tento fazê-lo com esta atividade. É muito difícil (assume). Depois, concilio também a questão de ser guia de birdwatching (observação de aves), mas o meu grande objetivo sempre foi dar a Conhecer para Preservar. Se precisava de mais tempo e não conseguia conciliar o meu emprego com o hobby da fotografia, decidi arriscar e comecei a fazer fotografia e atividades ligadas à natureza como vida profissional.


"A fotografia da natureza tem servido para mostrar às pessoas que não acreditam, que realmente as alterações (climáticas) estão a acontecer"

Onde conseguiu a inspiração necessária, para criar o seu trabalho?


Comecei por consultar e ver muitas fotografias e contactei com muitos fotógrafos nacionais e estrangeiros. Frequentei durante muitos anos um evento ligado à fotografia e ao vídeo de vida selvagem, promovido pela estação BBC - “Wildlife Photographer”, onde criei muitas amizades. E, aqui em Portugal, ao conhecer e aprender com fotógrafos com quem ia contactando. Esta foi a forma como eu desenvolvi a minha técnica e o meu portefólio.


Como é que são as condições em que trabalha no terreno?


Muitas vezes são complicadas, porque não é fácil. Chegar aos locais é difícil, pela distância que temos de percorrer a pé e vamos carregados com imenso equipamento fotográfico, em terrenos de difícil acesso. Estar horas e horas à chuva ou ao sol e com calor, pois estamos muito tempo quietos e sem falar no mesmo sítio. Há dias em que vimos embora, sem conseguir fazer uma única fotografia. Acabam por ser tempos que se gastam a aprender e a observar os animais, para depois podermos contar às pessoas o que vimos.


Quais são as maiores dificuldades para alcançar a fotografia "perfeita"?


Acho que os fotógrafos nunca fazem a fotografia perfeita. Eu tenho uma forma de fotografar muito despreocupada em relação à estética, porque não estou preocupado em fazer fotografias para concursos. Para mim, a fotografia da natureza é uma missão - fotografo para mostrar às pessoas. Eu quero que as pessoas olhem para a imagem e percebam que está ali um animal com determinado comportamento e num habitat. De vez em quando, também quero fazer fotografias diferentes, digamos artísticas. Muitas vezes, chego à conclusão que é isto que eu queria capturar! Fotografei um comportamento que estava há anos para conseguir fotografar, a luz estava perfeita ou o animal comportou-se como esperava. Sem muitas preocupações com a técnica, com a estética, mas a fotografia pode-se tornar perfeita, porque atinge os objetivos que nós queremos. Mesmo assim, a fotografia perfeita é muito complicada e não sei o que é.


Como captou a sua fotografia de eleição?


Quando comecei esta atividade, a fotografia que eu mais queria, naquela altura, era uma fotografia de um guarda-rios. No dia em que o fotografei, como queria, alcancei a maior alegria de todas. Depois, tenho a fotografia mais difícil pelo local e condições em que a fiz, que foi feita nos Pirenéus (fronteira natural de montanhas entre França e Espanha) a 2300 metros de altitude. Subi sem caminhos e, lá em cima, fiquei sozinho num abrigo de metro e meio quadrado, das 16h00 às 11h30 do dia seguinte, sem poder sair. Isto tudo para fotografar um galo-montês e consegui! As imagens deram-me um gozo fantástico porque era uma ave que sempre quis fotografar. E, depois, um episódio especial, de uma raposa que nos veio roubar a comida, saiu com um pacote de pão PANRICO na boca e deixou-me fotografá-la a roubar naquele momento. São acontecimentos destes que fazem valer a pena ser fotógrafo da natureza.


Fotografia da autoria de Carlos Rio - Guarda-rios

De que forma os fotógrafos adaptam diariamente o seu trabalho, quando são confrontados com a mudança das paisagens?


É muito complicado irmos a um determinado local fazer fotografia de paisagem e da vida selvagem e, dois ou três anos depois, regressamos a esse local com a esperança de continuar o trabalho ou fazer novas imagens, e vemos tudo alterado. Nesse local, vemos a mão humana a entrar em sítios onde não devia entrar. Isso dá-nos muito desgosto. Por outro lado, sentimos a necessidade de mostrar isto às pessoas, como uma chamada de atenção, para o que está a acontecer com a intervenção do ser humano na vida selvagem.


As alterações climáticas já são evidentes nas paisagens que fotografam?

Nas paisagens, vão-se percebendo alterações, obviamente. No que diz respeito às secas, aos sítios onde víamos água e agora não vemos, e também tem implicações nas migrações das aves. A fotografia da natureza tem servido para mostrar às pessoas que não acreditam, que realmente as alterações estão a acontecer. Uma questão que é tão grave e que nos está a afetar a todos, faz perceber que as coisas estão diferentes.


"Há um bocado ainda aquela ideia de que como todos têm uma máquina fotográfica no bolso (o telemóvel), acha-se que é fácil fotografar. E não é assim"

Em relação ao seu trabalho em 2019, qual foi o trabalho mais marcante?


Foi uma exposição que fiz, que se chama "Dar a Conhecer para Preservar" com 34 fotografias de 34 espécies. Percorreu uma série de locais e vai continuar a ser exposta em 2020, porque tem a ver com o meu objetivo final - que é chegar às pessoas. Fez sucesso em 2019 e foi vista por muitas pessoas em Esposende, Viana do Castelo, Porto, entre outros locais.


Ser fotógrafo ainda é uma profissão que é atraente para os jovens?


Eu acho que é. A fotografia de natureza não sei, mas garanto que não dá muito dinheiro. Em Portugal, nós não temos nenhuma revista dedicada à fotografia desta área, enquanto na França, na Itália, em Inglaterra existem revistas dedicadas à natureza. Isso é uma forma de os profissionais venderem as suas fotografias e ganharem dinheiro. E depois temos o ‘cravanço’, que é as Câmaras Municipais e as Universidades ‘cravarem’ fotografias. As coisas agora estão a melhorar um pouco, há instituições a pedir orçamentos e as condições são outras. Há aquela ideia que a fotografia é fácil de obter. Eu tenho uma lente que custa 16.000 mil euros! E já fui assaltado e fiquei sem equipamento nenhum. Tive de gastar mais uns milhares de euros, outra vez. Há um bocado ainda aquela ideia de que como todos têm uma máquina fotográfica no bolso (o telemóvel), acha-se que é fácil fotografar. E não é assim.


Para onde caminha o futuro da fotografia?


Qualquer dia, vamos chegar ao ponto em que basta carregar no botão e a fotografia aparece de alguma forma extraordinária. As pessoas, quando começarem a perceber que não têm gozo ao fazer uma fotografia, vão-nos fazer voltar quase à máquina mais rudimentar que já existiu. Vai-nos fazer sentir o prazer de fazermos as coisas manualmente. Atualmente, é uma máquina que faz e ficam todas perfeitas. E quando assim é, a coisa torna-se aborrecida.



Galo-montês / Víbora-cornuda

Fotografias da autoria de Carlos Rio

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