A cultura do ser feliz

Opinião por Iliane Soares


Um dia não são dias. E claro, mesmo a existência de mais do que um dia mau não significa que estejamos sentenciados a uma vida de sofrimento, mas o que é certo é que, na sociedade em que vivemos, mais assim o parece.


Sinto que vivemos numa estranha dualidade. Tanto se tenta normalizar a realidade que são as doenças mentais, estados depressivos, medos, sentimentos depreciativos sobre nós próprios e por aí fora, como, no reverso da moeda, parece haver um bombardeamento constante de positivismo forçado que nos arrebata. Isto acontece de um modo tal, que não sabemos se estamos de facto a ser incentivados a sermos as nossas melhores versões ou se, por outro lado, estamos a ser coagidos a agir de um modo para o qual nem sempre há disposição. E, honestamente, nem tão cedo haverá porque, além de já estarmos com a cabeça imersa nos nossos pensamentos negativos, ainda se acrescenta a culpa sentida por não sermos pró-ativos como os que observamos nas nossas redes sociais.


"É importante mostrar que há dias em que é aceitável não estar bem e que um ser humano funcional também é um ser humano com falhas e fragilidades, por muito que nos esqueçamos disso ao ver todos os dias uma ilusória perfeição escarrapachada nos nossos ecrãs."

Parece que deixou de haver o direito a sermos vulneráveis, quando de facto é normal sentirmo-nos dessa forma em certas alturas das nossas vidas. E o mais inquietante disto tudo é que, embora tenhamos de nos manter positivos por imposição de tudo o que vemos no nosso dia a dia, a verdade é que o efeito, por vezes, é exatamente o oposto, criando um ciclo vicioso. Absorvemos a informação como esponjas e de seguida comparamo-nos. Criámos o vício de olhar para nós próprios apenas quando queremos apontar um defeito e, quando nos colocamos no lugar dos outros, somos incapazes de visionar uma vida com complicações, uma vida normal, onde quase nunca nada é tão perfeito e iluminado como acreditamos ser.


A “cultura do ser feliz”, em excesso, acaba por não se tornar numa ferramenta de escape ou de motivação, mas sim numa constante incompreensão em relação aos sentimentos negativos que são tão primários como os positivos. Parece haver uma repulsa geral a demonstrações de tristeza que, por vezes, são tão necessárias como as de alegria. Devíamos reverter esta tendência.


Desenho por Iliane Soares
Desenho por Iliane Soares

É atendendo a este contexto em que nos inserimos que, cada vez mais, acredito no papel humanizante que as plataformas digitais e influenciadores podem ter nas vidas da generalidade das pessoas que se sentem desta forma. É importante mostrar que há dias em que é aceitável não estar bem e que um ser humano funcional também é um ser humano com falhas e fragilidades, por muito que nos esqueçamos disso ao ver todos os dias uma ilusória perfeição escarrapachada nos nossos ecrãs. Por vezes, além do simples “Vai ficar tudo bem” precisamos de ouvir: “Está tudo bem. Eu percebo, é normal estar assim às vezes.”, e claro, sublinhe-se o “às vezes”. Mais do que o: “Oh, não estejas assim. Tens tantas razões para estares bem.” ou o: “Sê feliz!”, precisamos do: “Leva o teu tempo”. Além da certeza de que qualquer período negativo das nossas vidas tem um fim, precisamos da compreensão do outro durante o mesmo, de que percebam que não somos seres inabaláveis, e, sobretudo, que essa é uma característica que acompanha qualquer pessoa real neste mundo e, como tal, não é sinónimo de fraqueza termos os nossos instantes de vulnerabilidade, não significa que depois da comoção não venha o restabelecer de nós próprios tal como somos.


"É tão humana a desfiguração facial de um rosto em lágrimas num pranto doloroso, como a deselegância de um riso demasiado estridente proporcionado por uma alegria imensa."

Tal como uma morte precisa do seu luto, todos os nossos maus momentos precisam de assimilação e libertação. Uma dor a ser vivida, porque o ser humano não foi concebido como uma criatura blindada a acontecimentos exteriores, muito menos a questões interiores. Os momentos de tristeza podem servir de catarse, de modo a fazer-nos renascer e revigorar, ver as coisas com outros olhos depois da tempestade dissipar, aprender uma lição, valorizar os dias bons, ou então, é simplesmente uma temporária avalanche de pensamentos e sentimentos negativos. Sabemos que passa, que é normal, que não será a última vez que nos ameaça atormentar, mas certamente que não será uma constante.

Desenho por Iliane Soares
Desenho por Iliane Soares

Por vezes, é apenas a vida a tentar estabelecer um equilíbrio e a recordar-nos que por vezes é necessário parar e deitar para fora. Afinal de contas, vivemos em ciclos. É tão humana a desfiguração facial de um rosto em lágrimas num pranto doloroso, como a deselegância de um riso demasiado estridente proporcionado por uma alegria imensa. Há manifestações das quais não nos orgulhamos, sentimo-nos ridículos, frustrados por estarmos a comportarmo-nos desta maneira, de certa forma despidos em relação aos que nos rodeiam. Tudo isto é normal, acontece a todos nós. Por vezes sentimo-nos como um castelo de areia próximo do mar, em que sempre que nos encontramos num estado depressivo é como se colidisse uma onda em nós próprios, levando uma parte de nós, pouco a pouco. Nesses momentos, pedir ajuda não se trata de se deixar vencer, mas sim de reconhecer que podemos melhorar, ao nosso ritmo.


Um dia não são dias, temos de aceitar a sua existência, é inevitável. E acreditar que, mesmo que nada pareça bater certo, não estamos sozinhos e, no final, tudo passa. Esta é uma verdade em que nos podemos sempre agarrar.

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