A arte de não saber estar


Março


Não ando a contar os dias, nem a fazer vídeos estúpidos no Tik Tok. A minha rotina é muito mais infeliz. Minto, até conto. Conto as diretas que já fiz desde que as aulas foram suspensas. já foram dez, com pequenas sestas de três a quatro horas para desleixar o cansaço.


Relembro os primeiros dias, da utopia que se pensava que ia ser. Da euforia que era pensar sair com os amigos e festejar, o arraial que se avizinhava. Por momentos chegou a ser, bebida, muita, música até amanhecer, num pequeno apartamento quase despovoado. Povoado de forma intermitente com dois outros amigos, porque todos os outros estudantes que lá viviam já tinham encontrado nas suas casas refúgio. Nós ficámos, éramos teimosos.


Fiz anos no dia dezasseis, até esse dia esta casa estava cheia. Muitos aguardaram comigo para festejar, foi o único pretexto para os deixar ligados a uma terra que não é a nossa. Até esse dia ninguém estava completamente ciente de tudo aquilo que se estava a desenrolar, as preocupações eram o bolo e a ementa para o dia. Nunca fui de festejar o meu aniversário.


Essa semana foi o nevoeiro que só veio levantar quando, a conta gotas, toda a gente se esfumou. Devo dizer, que semana. Entre a amizade dos que ainda cá estavam e o amor caloroso partilhado entre dois jovens enamorados, que viram nesta situação o pretexto para finalmente passarem tempo de qualidade juntos, foi brilhante.


A ilha dos amores rapidamente sofreu uma metamorfose em esteróides e assim criou-se o Adamastor que se vive até hoje. Numa casa de cinco, que no momento albergava sete, sobram dois. Dois insulares que decidiram, pelo seu bem e dos restantes, cumprir o seu recolher a centenas de quilómetros de distância do seu verdadeiro lar.


Custa estar longe da família, ainda mais quando uma pandemia emerge. O choro de uma mãe por telefone é um episódio que passará sempre como desnecessário em qualquer língua. Deve custar mais abandonar o país sabendo dias antes que estamos grávidas, apenas tendo uma remota ideia de quem é o pai. Foi o que aconteceu à última colega de casa que abandonou o útero de desamor que se tornou esta cidade, este país.


Comecei a escrever este texto a achar que tinha que escrever uma crónica para uma das cadeiras que tenho. Apercebi-me de que, de todos os trabalhos que tenho a fazer, uma crónica não é um deles. Isso apenas demonstra que só escrevo por necessidade. Agora tenho necessidade de continuar.


A verdade é que a vida tem demonstrado que tem tanto de injusta como de bela, num espaço de breves segundos. Eu carreguei as suas malas do terceiro andar até à porta do prédio, só para aperceber-me que provavelmente foi a última vez que a verei na minha vida. Espero que o bebé nasça bem, mesmo que num país em que o seu líder máximo defende que o vírus é apenas mais uma gripe que flagela somente os mais velhos.

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