• Tomás Barros

Ilha

Esta ilha de que me farto passado um mês, é a mesma que pinta uma mente que funcionava a duas cores, sem me aperceber.


Dou comigo a esgueirar-me durante a noite, para fumar um cigarro às escondidas dos meus pais enquanto conto as estrelas tão facilmente observáveis, em madrugadas em que o vento mal sopra em pleno Inverno. Tudo é calmo, nada acontece, vive-se em pausa, os sentimentos congelam-se durante eternidades, ao ponto de sair da ilha, voltar, e eles permanecerem lá. Intocáveis. Só muda o que trago para a ilha, a ilha não aceita, nem rejeita, ela é o espaço alado onde se respira tudo aquilo que se deseja respirar.


As constelações surgem claras no céu, a escrita renasce como se nunca tivesse sido impregnada pelo lado vil da inspiração e o papel surge manchado pelos temas que tinham sido enterrados no subconsciente. Todos os eventos reprimidos pela memória surgem com uma nova luz, prontos para uma dissecação menos violenta, mas igualmente custosa.


A ilha é uma desintoxicação do que não se sabia ser tóxico. A toxicidade de tudo o que não é ilha infiltra-se pelas fronteiras do que se tomava por ser impenetrável. Só a ilha repõe o que não se sabia ter sido deturpado.


A ilha é o reencontro com a concentração e o corte repentino com a inflamação da mente. É fácil ser infetado, só na ilha encontro a cura sem ter notado que estava doente.


Ainda nem saí de casa. Só tenho fugido até à varanda observar o mar e o céu. Durante a noite são um, de dia são um, mas com duas facetas. Durante o dia o mar consegue ser mais calmo que o céu, um poço. O céu contém mais introspeção, até porque de noite é luz, de dia é desordem quando ao lado do mar.


Só a ilha é que me faz escrever para mim. Agora só tenho escrito sobre e para os outros, a ilha pariu a minha vontade, a ilha trouxe-a de volta. Não leio o que escrevo quando o faço a sério, aqui deixo de me ler e começo a escrever-me.


Casa é sentir-se confortável para ser.




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