2020? Venha ele!

Dão as doze badaladas e o fogo de artifício ilumina o céu, marcando a entrada no novo ano. O cenário é igual todos os anos. Foi assim em 2019, igual em 2020 e, certamente, será assim em 2021. O dia 31 de dezembro é, sem sombra de dúvida, o único dia em que se vangloriam os números de um ano que está na iminência de começar, pois, de resto, ninguém vai querer saber se é 2020 ou 2030.


Uns óculos grandes e pirosos, uma bandolete com um laço que pisca, uma indumentária charmosa, uma roupa interior, daquela que aparece no programa do Goucha e que dizem que, indubitavelmente, e dependendo da cor, traz dinheiro, amor, paz e tudo aquilo que cada um considera necessário levar para o novo ano. Por fim, mas não menos importante, uma certa quantia de álcool para animar a malta. Reza a lenda que há quem aproveite para beber pelo ano todo. São, sem dúvida, alguns ingredientes para uma passagem de ano que a maioria das pessoas considera ser em cheio.


Admitam que os planos para a mudança do ano são uma dor de cabeça. Não é por falta de tempo, porque, na realidade, existe todo um ano para a sua preparação. Fica sempre tudo para a última da hora e, depois, opta-se pelo plano que está mais à mão.


Com a meia-noite, vêm as resoluções, que muitos escrevem num papelinho, para terem a certeza que não se esquecem de nenhuma, as passas e os tachos. Sempre me procurei afastar do ritual de subir à cadeira, pensar em doze desejos para o novo ano e ingerir doze passas. Não porque não tenha o meu ano minimamente planeado, mas porque acho intragável (principalmente as passas, mas as resoluções também, ainda que estas não se comam). O consumo das passas causa-me transtorno. Não me vou obrigar a enfiar pela goela abaixo doze pedaços de algo que leva as minhas papilas gustativas à falência, só para garantir que, em 2020, vou deixar de ser tão preguiçoso. Para isso, prefiro ir bater com os tachos e as panelas, sempre é mais libertador e dizem que afasta os males.


As resoluções são um fenómeno interessante. Não é por mudar o ano que a vossa vida sofrerá grandes alterações. Não é por dizerem que vão mais vezes ao ginásio que a overdose de doces que ingeriram no Natal vai desaparecer milagrosamente do vosso corpo. Vão continuar a ir as mesmas duas vezes por ano, sendo que essas duas vezes servem para tirar fotos nos espelhos, para meter no Instagram. 2020 não vai ser “o ano”, porque toda a gente diz isso, todos os anos! Aliás, nos primeiros dias do ano, se calhar, vão ter que andar a fazer novos documentos após terem perdido a carteira depois de um encosto malandro de uma das muitas pessoas que, tal como vocês, enchem a Praça do Comércio ou a Avenida dos Aliados.


O meu Réveillon, termo do francês réveiller, que, em sentido figurado, significa "acordar" ou "reanimar" e que a malta usa para aumentar a chiqueza do momento, é, tendencialmente, muito tranquilo. Opto por fugir aos grandes ajuntamentos e refugio-me num local onde possa comer um paté de sapateira, em conjunto com outros snacks e esperar que os balões da Remax, que fazem a contagem decrescente para a entrada no novo ano, apareçam, sendo que, ao mesmo tempo interrompem a especialíssima emissão da Casa dos Segredos. Este ano não foi assim. Não por eu não ter disposição, mas não houve Casa dos Segredos. Outra coisa muito minha é que prefiro subir ao sofá em vez de subir à cadeira, enquanto, simultaneamente, me equilibro somente na perna direita, segurando, com as mãos, o cálice cheio com um qualquer tipo de licor. Um entusiasmado “Feliz Ano Novo”, acompanhado de um tchim tchim e está a coisa feita.


Com a maioria dos desejos de 2019 por concluir, enfrentaremos 2020, que, ainda por cima, é um ano que inaugura uma nova década, como mais um movimento de translação da Terra repleto de desafios, alegrias e tristezas, sonhos para concretizar e muito amor para dar e receber. O desejo de que este seja “o ano” manter-se-á. Resta-nos fazer por isso.



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