• Tomás Barros

Último fôlego

Atualizado: 17 de Jun de 2020

As aventuras do estado de emergência rebatizado para estado de calamidade, que na minha humilde opinião, mete muito mais medo do que a palavra emergência (embora simbolize um pronúncio de melhoria), trouxeram-me de volta à pérola do Atlântico. Uma pérola devidamente desinfetada e esterilizada, que cumpre de forma preponderante todas as regras de segurança e distanciamento social.


De Coimbra para Lisboa num transporte público apinhado de pessoas que emanava a sensação banal de sardinha em lata, a chegada a um aeroporto deserto que mais parecia um cenário pós-apocalíptico, muito ao estilo de “Mad Max”, para aterrar no reduto mais pacífico que possui o Atlântico. Recebido pelas autoridades, questionado sobre as últimas movimentações, analisado em relação à temperatura corporal e direcionado para uma unidade hoteleira onde iria passar os próximos 14 dias da minha vida que, contada desta forma, quase que se assemelha à de um fugitivo, lá segui cegamente sem questionar.


Todo atrapalhado de mochila às costas e com duas malas em cada mão, seguia as indicações dos polícias e das autoridades de saúde, como um muçulmano cumpre por amor e devoção o Ramadão. À saída do aeroporto e junto à berma do passeio, aguardava um autocarro negro, pronto para fazer a ligação até ao próximo local de encarceramento. À direita, vários familiares aguardavam pacientemente e em apneia os entes queridos que regressavam ao útero que os gerou.


Uma mísera e enfezada fita de plástico da polícia, separava meses de preocupação, incerteza, saudade e amor. Esta era a última barreira que separava pais de filhos. Cumprimentavam-se, ao longe, com muitos sorrisos e lágrimas de felicidade e alívio, que escorriam lentamente pelas bochechas, acabando por encontrar abrigo nas máscaras cirúrgicas.


Tudo parecia imponente, ou nós é que se calhar nos sentíamos pequenos perante toda a operação montada. Seguimos no autocarro, os olhares eram de apreensão e ao mesmo tempo de tranquilidade. Olhares que se transformavam constantemente, mas sempre dotados de um brilho, o brilho de ter regressado a casa.


À chegada do hotel, todos nós, os novos pioneiros de viagens pós estado de emergência, fomos esclarecidos sobre como se iria proceder a estadia “forçada” no hotel. Eu só respirava de alívio por ter aterrado em casa, era um respirar a fundo, ainda com um filtro na cara que impedia a ventilação plena, como todos já nos vamos habituando.


Esta prisão domiciliária numa casa emprestada, tinha um gosto a palácio de um sultanado qualquer. Uma vez que toda a jornada, toda a travessia no deserto, após tanto tempo, chegava a um fim e não a mais castelos de areia.


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